As Cores da Rua dentro da Escola

Por Josué Gomes, para Jornalistas Livres

A educação pública, quando incentivada, pode ser transformadora. Em meio a um cenário onde a evasão escolar está cada vez mais presente na pauta dos movimentos estudantis, ações como a As Cores da Rua, realizada no último sábado, dia 23, na Escola Estadual Olegário Maciel (Centro de BH), nos mostram que acreditar na força dos estudantes pode ser um dos caminhos para solucionar essa questão.

O evento contou com a participação de artistas e midiativistas da capital mineira, que contribuíram com a ação através de oficinas e rodas de conversa. “O projeto foi algo que pensei em fazer logo após ter visto uma iniciativa desenvolvida pela prefeitura de BH, onde diversos artistas fizeram murais em alguns prédios da cidade. Minha intenção era trazer para dentro da escola esse tipo de intervenção artística, de maneira que pudéssemos contribuir para a aceitação e valorização da arte de rua”, disse Pedro Alcântara, aluno de 17 anos e presidente do grêmio estudantil. O estudante afirma que se sentiu surpreso com a posição tomada pela diretoria da escola, já que, em suas palavras, “eles não mostraram postura negativa em relação ao projeto, pelo contrário, foram totalmente liberais, tanto que liberaram um dos muros da escola para a realização do grafite”. Para que o As Cores da Rua fosse realizado foi preciso à integração dos estudantes do grêmio e também da comissão de formatura do terceiro ano.

Durante a manhã do sábado letivo, os estudantes puderam participar de inúmeras atividades culturais e informativas. Entre elas estava o lançamento do projeto Comunicadores da Hora, que pretende realizar uma série de oficinas  com temáticas voltadas para a democratização da mídia e o direito ao acesso à informação. Desde 2014, a ONG Internet Sem Fronteiras promove projetos com foco em educação e mídia nas escolas da Grande BH. Segundo a diretora da organização, Florence Poznanski, o objetivo da atividade é trazer ferramentas para que os jovens desenvolvam uma relação mais crítica com a mídia, entendendo-a para formar suas opiniões e também terem a experiência na produção de vídeos, textos e programas de rádio. “A importância de trazer essa iniciativa para o ensino médio em uma escola pública está no intuito de aguçar o senso crítico da juventude e entregar para os estudantes o conhecimento para propagarem suas falas”, lembra a coordenadora educomunicacional, Rayana Bartholo. A Estadual Olegário Maciel abriga o projeto desde 2015 e irá receber novamente suas atividades durante as manhãs e tardes desse trimestre.

Larissa Santiago

“A minha participação no Comunicadores da Hora foi um grande avanço para mim, pois aprendi a conciliar as atividades do projeto com as aulas normais e isso facilitou o meu amadurecimento a respeito do tempo. Foi o começo de uma nova maneira de enxergar a vida. Antes de participar eu tinha uma visão curiosa, mas que faltava conteúdo, e esse eu recebi nas atividades do projeto. Lembro-me especialmente quando produzimos um vídeo sobre o Feminismo, onde se tratava de um teste pra você se reconhecer feminista, e a partir desse trabalho a minha mente abriu para diversos assuntos, fui “desconstruída” em diversos pontos. Portanto eu acho muito importante levar esse conteúdo para as escolas públicas, pois ele enriquece de uma maneira muito significativa, ajudando também a nos comunicar de verdade com o mundo lá fora”, conta a estudante Larissa Santiago, aluna de 17 anos que participou da primeira edição do projeto.

Um sarau cultural reuniu os estudantes e convidados para assistir apresentações feitas por alunos da escola. Além disso, o espaço abrigou uma oficina de dança de rua feita pelo dançarino Guilherme Maciel e  um show com os rappers Saboia Preto e Bêre MC. Os muros da escola também foram alvo dos estudantes para integrar parte da intervenção artística, onde a grafiteira Joana Ziller pôde registrar sua arte na companhia dos estudantes. “Acho que uma escola abrir espaço para que os alunos entrem em contato com cultura de rua e com a arte contemporânea é de extrema importância, tem que ser incentivado e levado para outras. Eu acho a presença da mulher no grafite necessária, as minas tem que chegar e fazer, quanto mais mina fazendo acontecer melhor. Os homens não têm que abrir espaço no grafite pra nós, esse espaço já é nosso, então tá com vontade de mandar, vai lá e faz. O negócio é não desistir. Estar acompanhada das manas e dos manos pra ir além”.

Outro ponto forte do As Cores da Rua foi a grande presença das entidades estudantis representativas. Em uma conjuntura em que a Lei (PL) 274/2017, conhecida como “Escola Sem Partido”, tramita novamente na Câmara, é essencial que os grêmios se fortaleçam mantendo contato com as organizações “macro”. O projeto de lei traz propostas que transitam entre a proibição do professor de expressar “interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias”, e cogita até o mesmo o impedimento da discussão de diversidade sexual e de gênero. Segundo a professora de geografia, Aparecida Moreira, o evento provoca a proposta da Escola Sem Partido que é carregada de conservadorismo, autoritarismo e fundamentalismo cristão. “Colocamos em evidência o pensamento crítico, o protagonismo juvenil, uma escola com espaço para discussão da cidadania, garantida e  estabelecida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação  (9394/96)”.

Matheus Lourenzo, Diretor contra Homofobia da AMES-BH

“Trazer o movimento cultural para dentro da escola é um símbolo da nossa luta e resistência contra esse projeto de lei, e em defesa da democracia na educação.  Não queremos ser formados como robôs, mas almejamos ser seres pensantes e transformadores da sociedade”, reforça Késsia Teixeira, presidenta da União Colegial de Minas Gerais. Já o aluno Matheus Lourenzo (Diretor Contra Homofobia da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande BH)  nos lembra da importância das entidades estarem dentro das escolas, pois, de acordo com ele,  “os estudantes têm o direito de se sentirem representados e também de representar-se”.

As Cores da Rua é um exemplo perfeito de que, quando os estudantes são ouvidos, a educação tem possibilidade de promover a igualdade e o enriquecimento cultural. Quebrando os muros da escola, permite-se que a instituição e a sociedade conversem de forma dialógica. “O projeto integrou a Virada da Educação das Escolas Estaduais de Minas Gerais. Sendo assim, como temos um grupo de alunos atuantes, seja pelo Grêmio ou por algum movimento estudantil, decidimos dividir com eles a responsabilidade de organizar as atividades”, concluiu o diretor da escola, Michael Rodrigues. A Estadual Olegário Maciel há um bom tempo vem tentando lidar com um problema: embora esteja em uma área central rodeada por pessoas, a escola não possui uma comunidade escolar. Contudo, ações como esta realizada pelo Grêmio vêm mostrando a capacidade que a luta estudantil organizada tem em fomentar a democratização do acesso ao prédio da EEOM, construindo dessa forma uma teia de relações entre alunos, entidades, moradores, trabalhadores e ex-alunos. A solução para o impasse, assim como os outros desafios da educação pública, pode ser complexa. Mas de uma coisa se tem certeza: ela está nas mãos daqueles que ocupam suas carteiras.

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