Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste

Por Elisa Lucinda, dos Jornalistas Livres

É 7 de setembro. Sou de uma geração de crianças que estudou o poema “A pátria” de Olavo Bilac na escola, e acreditou que haveria uma república de confiança. E houve.

“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!/Criança! Não verás nenhum país como este!/Olha que céu! Que mar! Que rios! Que floresta!/A Natureza, aqui, perpétuamente em festa,/É um seio de mãe a transbordar carinhos./Vê que vida há no chão! Vê que vida há nos ninhos,/Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!/Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!/Vê que grande extensão de matas, onde impera/Fecunda e luminosa, a eterna primavera!/Boa terra! Jamais negou a quem trabalha/O pão que mata a fome, o teto que agasalha…/Quem com o seu suor a fecunda e umedece,/Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!/Criança! Não verás país nenhum como este: Imita na grandeza a terra em que nasceste!”

Acreditei. Fui constituída cidadã na lira da utopia. Dentro de minha casa, meu pai tinha ideias comunistas e falava o tempo inteiro em democracia, em uma sociedade justa e igualitária. Lutou por isso. Emancipou e até hoje emancipa a avassaladora maioria dos que viveram e vivem à beira de sua grandeza.

Ninguém falava em ecologia, mas também ninguém pensava que rios e florestas pertencessem a um conjunto de coisas que se acabariam. Estou muito assustada. O país nunca tinha vivido tempos de tantas políticas de inclusão como os que vivemos há pouco. Há muito não se via o aumentar das universidades públicas e a república tinha vivido até ali, órfã da Lei Maria da Penha, da permissão ao casamento homoafetivo, do sistema de cotas e de vários outros programas de desenvolvimento geral da nação. Por erro de todos os lados, o Brasil destrambelhou e a atrapalhada e confusa quadrilha agarrada no poder de curto prazo não para de lançar sobre nós suas autoritárias mudanças definitivas, como lanças de fogo e como quem tem pressa. Muita pressa.

A flagrante desidratação dos aparelhos culturais em todo país é cruel e dá pena. A falência das universidades, dos institutos de pesquisa, ou seja, tudo que garante o real desenvolvimento de um país , revela que não se está interessado no bem estar dessa pátria, dos seus filhos e em especial dos mais pobres. Não fossem espantosos os números reais de nossa guerra urbana e rural onde pobres e negros principalmente , são invadidos, assassinados, desrespeitados diuturnamente, ainda tem a violência simbólica de esfregar malas de dinheiro na cara de milhões de honestos brasileiros desempregados , dedicados trabalhadores tentando , com uma inabalável dignidade dizer aos filhos que roubar é crime, enquanto prisões domiciliares em mansões sem uso de tornozeleira, desfilam imunidades em nossa cara.

Quem tem dinheiro para pagar um advogado? Quem pode pagar (e sem atrasar) um plano de saúde hoje ? Quem tem crédito para fazer um empréstimo de cinco e pagar dez? Quem? A violência simbólica desnutre a esperança e é aquela que diz: “Foda-se a pátria, você está nessa? O que vale é o meu. Foda-se o Estado!! Privatiza tudo e garanta minha parte na negociata. Fodam-se as florestas e os rios, eu quero é ganhar a minha parte oferecendo o campo de ninobio para mineração. Fodam-se os índios, essa gente selvagem e incivilizada só quer mato é bicho em volta , sem deixar chegar a verdadeira civilização. Foda-se a política, todo político é corrupto, não tem mais jeito não. O bom é eleger um empresário, gente boa em administração.”

Tudo mentira. Frieza. Destreza. Ilusão. O Estado somos nós, nele existem nossos representantes, os que elegemos para cuidar de nossa casa. É um ardil da pior espécie dizer que não há Estado honesto e que não poderá haver um político que honre sua função. Por isso uma reforma política se faz urgente, mas quem tem que fazer a reforma política não pode estar comprometido com a forma política e os velhos vícios que queremos extirpar, vícios que incluem a escarniosa lista de vantagens. O que temos que tirar do Estado são os caprichos da corte, o excesso de benefícios individuais para os parlamentares, como muitos vereadores, por exemplo, que vendem suas próprias excessivas férias, vivem ostensivamente ” bem de vida ” pelas cidades do Brasil.

É 7 de setembro, eu me pergunto: Se as malas de Gedel em Salvador, de Rocha Loures em São Paulo e no Distrito Federal são as protagonistas da novela nacional, quantos coadjuvantes talvez roubem por aí, prefeituras inteiras sem que possamos mensurar? Quantos juízes são comprados, meu deus, procuradores de municípios que nunca ouvimos falar? Se for a exemplo do Distrito Federal, se for a exemplo do comportamento da Capital Federal, o prognóstico é desesperador. Uma espécie de metástase da corrupção toma conta do corpo da pátria. Que loucura. Quanta riqueza que não é identificada como riqueza. Alguém de nós teria coragem de não deixar ar nem água para as crianças que acabaram de nascer ou que nascerão num futuro próximo? Quem seria tão cruel? Pois é o que está acontecendo. Reservas, museus, rios, florestas, estão morrendo. A Amazônia não é do presidente. Pertence aos brasileiros e queremos deixar a pátria sã para nós e para os nossos novos filhos.

Quando querem por a perder um paciente nos execráveis manicômios tradicionais com técnicas de tortura e choques elétricos , a primeira coisa que se faz é tirar suas referências, suas coisas pessoais, sua memória, seus pequenos objetos que constituem a palavra eu. E aí sim , nesse momento se enlouquece um homem; se não era louco antes de chegar ali, acaba de ficar. É esta mesma tentativa que se está fazendo contra o povo brasileiro, tornando-o perdido, dando informações desencontradas, retirando suas referências , apresentando fotos nas manchetes com legendas trocadas e um triste carnaval diário feito de mentiras e manipulações: Nossa crise não é a econômica, é a política.” Como se essas duas coisas fossem indissociáveis. “A economia está melhorando”. Aonde? Nenhuma economia pode ir bem com estes números de guerra que atinge policiais e cidadãos, com milhares de profissionais da arte e de vários setores produtivos que estão. Improdutivos demais. O desemprego está baixando enquanto aumenta o número de desempregados? Manobras de ilusão se intensificam.

Em Brasília as ruas que dão acesso à casa do Presidente estão fechadas, sua impopularidade exige proteção, afinal a qualquer momento uma manifestação pode explodir à sua porta, uma vez que seu cargo não tem a legitimidade dada pelo povo ao qual representa. E por isso não o representa. A Amazônia não é dos ladrões brancos impregnados de processos e factíveis suspeitas. Essa gente que não precisa roubar, essa gente que já está rica ,que não mora na favela e não tem cinco bocas para sustentar em casa. Amanhã é 7 de setembro e ninguém consegue esquecer os 51 milhões ,os quais, a pouquíssimos brasileiros tenha sido dado ver. A não ser na TV.

Felizmente conheço novos pensamentos, flores que nascem dessa lama, creiam-me. Alguns políticos, nossos parlamentares que são minoria nesse Congresso tão mercadológico, esse Congresso tão comércio de escravos ideológicos de quem paga mais, fazem uma corajosa e ferrenha oposição e tal qual David, confiam na pequena certeira pedra e não se assustam com o tamanho de Golias. Alguns valentes resistentes políticos lutam para nos honrar e defender ,enquanto surgem na calada dessa grande noite novos quadros de representação. Há uma periferia bombando, fortalecida pelo sistema de cotas que pôs um monte de pretos nas universidades. Deu acesso. Diminuiu danos. Existe uma esquerda que não é só branca e elitizada. Há organizações não governamentais que se tornaram grandes vozes parceiras das organizações civis e que se valem da democracia e da garantia de suas instituições , mesmo dentro de uma república vilipendiada e doente, para não se deixar abater.

A boa notícia é que as coisas não param de piorar e isso nos leva a crer que seu fim está próximo. O sol não fica o tempo inteiro no meio dia. Uma hora ele se põe. Uma hora a gira vira. É hora de identificar nossos representantes, achar o nosso lado nessa brincadeira. Quem não sabe se é de esquerda ou de direita, e na minha história não existe centro, é só se perguntar em que ideologia pode melhor caber. Às esquerdas se atribui o fundamento do bem coletivo. Em resumo, é a base da filosofia ubuntu: “ Como posso ter tudo e ser feliz sozinho, enquanto meu irmão não tem nada?”

E , às direitas costuma -se atribuir regras de privilégio pessoal e individual, cruel competição, individualismo acirrado, aumento da desigualdade de muitos para garantir o acúmulo de bens e privilégios na mão de poucos. Simples assim. Veja de que lado você está e comece a agir a partir da política do seu cotidiano, do nosso cotidiano com base na sua ideologia.

A pior coisa nesse momento é achar que não tem jeito. Leva à não atitude e consequentemente à letargia e à omissão .Uma outra coisa também muito ruim e perigosa é esperar um salvador da pátria. Salvadores da pátria em geral não dão conta sozinhos do serviço coletivo , coisa muito pesada para um só lombo. Salvadores da pátria são centralizadores ,em geral se inflam egoicamente da função que lhe outorgam e ao fim, não salvam nada.

Muita coisa tem sido destruída, mas não a nossa experiência. Nada podem contra ela. O que estamos assistindo? O cinismo, a confirmação de uma sequência de golpes. Tudo isso que dói agora, também nos amadurece e não há história que possa dar ré neste saber. Luto para preservar a natureza da qual Bilac me fez guardiã desde menina é pra que não se acabe. Batalharei até o fim por ela.
É dia da independência . Não conheço coisa mais cara que isso. Simbora. Estamos, às vezes até sem saber, nos preparando para fazer a hora e não esperar acontecer.

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