A imprensa, a Venezuela, o golpe

Por Rosane Borges, especial para os Jornalistas Livres

A América Latina parece sempre caminhar em sincronia, seja qual for o prisma adotado para análise. Sempre acossada por um capitalismo que tenta sistematicamente relegá-la à dependência, à não soberania, experimenta “episódios” que se desenrolam em etapas cíclicas e demonstram que, a despeito de nuances, particularidades e diferenças entre os países, segue em marcha, com recuos e avanços, uma história comum que demonstra, com força pedagógica, como certas narrativas se espraiam no tecido social e se impõem como a única possível. O descalabro na Venezuela espelhado no cristal da chamada “grande imprensa” é mais uma mostra dessa nefasta imposição.

Olhe-se para onde se olhe, vimos irradiar dos jornais de quase todas as latitudes que a Venezuela soterrou definitivamente os princípios democráticos ao convocar a Assembleia Constituinte e que a violência, um recurso atribuído ao governo Maduro, deve ser veementemente repudiada. Vimos, igualmente, engrossar o coro deste enunciado alguns setores da esquerda e de cidadãos brasileiros – estes últimos sustentam até hoje que o Brasil não protagonizou um golpe com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, já que, sustentam eles, foram respeitados os princípios legais (uma boa leitura de Giorgio Agamben sobre legalidade e legitimidade cairia bem).

Estas pessoas insurgem-se fervorosamente contra o que está acontecendo na Venezuela, porém foram incapazes de mover um músculo sequer para o que aconteceu e vem acontecendo no Brasil. Para esses setores, golpe, inviabilidade institucional, desrespeito à democracia, só acontecem na “Sibéria”, ou melhor, na Venezuela. A crise de nossa pátria mãe gentil é de outra ordem, insistem eles. Empurram os argumentos de que Maduro é um ditador despótico para o campo jurídico, na esperança de dar a eles verniz insuspeito. Porém, é o próprio direito que diz o contrário, restando apenas juízos de valor subjetivos para embasar tal acusação. Vejamos as considerações de Herminio Porto, dos Jornalistas Livres:

“Afirmar que Maduro cumpriu a Constituição ao convocar a Constituinte é um juízo de valor objetivo, pois seu ato é analisado tendo por base a norma constitucional. Dizer que Maduro é um ditador por ter convocado a Constituinte para se ‘perpetuar no poder’ é um juízo de valor subjetivo, cuja importância para o direito se compara ao julgamento estético de seu bigode, ou seja, não tem o menor significados jurídico (…). Não pretendemos dizer aqui que tudo vai bem na República Bolivariana. Não vai! Mas não é por causa da Constituinte. É prematuro acusar de ditador um cumpridor da Constituição, dado que faltaria um elemento fundamental para caracterizar Maduro deste modo: o despotismo, que é o desrespeito à lei. Se os países do Mercosul suspenderam a Venezuela, não é por romper com cláusula democrática ao convocar a Constituinte. O dispositivo legal está lá há anos: se este é ‘antidemocrático’, por que não repararam nisso antes?

E o roteiro de uma “história comum” parece ganhar densidade quando fazemos correlações com o passado. Quer nos parecer que a Venezuela de hoje revive os mesmos dramas do Chile de 1973, pré-golpe. As estratégias para deslegitimar Maduro foram as mesmas que depuseram Allende. Tanto antes como agora, a imprensa forneceu a grande narrativa que deu nexo e liga para a construção de “um” consenso. Allende foi acusado de colocar o Chile na rota de um marxismo que afundou o país, boicotado pelo empresariado opositor que provocou um desabastecimento artificial, como o que estão fazendo com a Venezuela. Para tentar combater esse terrorismo comercial, Allende criou as Juntas de Abastecimento e Preço, conhecidas como JAP’s e Maduro, os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), muitos deles queimados por uma oposição entreguista. O Chile nacionalizou o cobre em 1971, a Venezuela o fez com o petróleo. No Chile de 1973 e na Venezuela dos nossos tempos, os donos do poder lutam infatigavelmente para romper um ciclo em que mudanças protagonizadas por diversos setores populares devem ser abortadas, mesmo que o país tenha que pagar um preço tão alto.

Vocalizando os interesses dos donos do poder (meios de produção, capital financeiro e a ingerência note-americana), parte da imprensa global subscreve uma narrativa pomposa, fiadora dos direitos humanos, defensora intransigente da democracia, “solidária” com o povo venezuelano sem cumprir minimamente o dever de casa: nada se vê, lê, das posições contrárias às hegemônicas. Não há nestes jornais nenhuma posição dos milhares de homens e mulheres que apoiam o governo venezuelano. Nada, nadica de nada… Jornalismo se faz com pluralidade de vozes, prismas diferenciados, contrabalanço de opiniões. A ausência disso também é golpe no jornalismo. Não é nada democrático, para sermos gentis.

*Rosane Borges, 42 anos, é jornalista, professora universitária e autora de diversos livros, entre eles “Esboços de um tempo presente” (2016), “Mídia e racismo” (2012) e “Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro” (2004).

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