Quem consegue estudar na USP?

Lucas Martins e Katia Passos, dos Jornalistas Livres

A luta por uma USP aberta para o povo não é nova, mas apenas agora, a universidade mais importante do país se move da posição de lanterna para tentar deixar para trás o histórico de elitismo com racismo. Mesmo com a recente adoção de cotas, entrar na USP é uma dificuldade para os estudantes pobres, que são historicamente em sua maioria, negros.

Além de ter que superar um sistema de educação pública falho e deficiente (em boa parte por conta da falta de investimento proposital do governador tucano de Geraldo Alckmin), alunos competidores que vem de verdadeiros centros de “treinamento militarizado” que são os cursinhos e um vestibular opressor, as dificuldades para muitos estudantes começam antes mesmo das inscrições para fazer a prova da Fuvest, o vestibular para a USP. Estamos falando do preço desestimulador da inscrição. Se o estudante pobre, aquele que estuda em sua maioria em escolas estaduais e que geralmente mora nos extremos das cidades não desembolsar R$170,00, esqueça! Neste ano ele não fará a prova da FUVEST. Não podemos esquecer de um dos maiores sistemas  de vestibular do mundo, o ENEM, outro que cobra o também salgado preço de R$82,00.

Com esse valores que só pensam na alimentação do capital, a maioria dos estudantes brasileiros são desestimulados e não conseguem disputar uma vaga na Universidade de São Paulo. Ainda que exista a possibilidade de isenção de taxa ou desconto, o processo ainda é tão burocrático e desestimulador quanto pagar os R$ 170,00. Para conseguir a isenção, é necessário que os candidatos comprovem renda máxima familiar de R$ 1.405,50 mensais por pessoa. Já o desconto de 50% é liberado para pessoas com renda individual de até R$ 1.873,99 e renda familiar de R$ 1.406 a R$ 2.811 ou que provem que estão desempregados. Mas, não é só declarar essa ou aquela renda e ser beneficiado. O imbróglio é bem maior do que isso. No site da FUVEST a orientação é clara:

“O primeiro passo para realizar o pedido, é acessar a área de Usuários no site da Fuvest, e se cadastrar utilizando o número de Cadastro de Pessoa Física (CPF). (…)Até o dia 7 de agosto, o candidato deverá escolher quais das duas modalidades de solicitação suas condições pessoais se enquadram (isenção ou redução da taxa de inscrição). Depois, é preciso preencher o formulário pelo site, imprimi-lo e assiná-lo; e adicionar as cópias simples dos documentos pessoais e dos comprovantes da situação socioeconômica. Todos esses papéis deverão ser encaminhados em correspondencia registrada, postada nos correios até 8 de agosto, em envelope endereçado a:

Redução/isenção Fuvest 2018
Fuvest – Fundação Universitária para o Vestibular
Rua Alvarenga, 1945/1951
05509-004 – Butantã – São Paulo, SP.

Até dia 18 de agosto, a Fuvest disponibilizará em seu site, na área “Usuários”, a consulta individual do resultado da solicitação.

Importante: Os contemplados com isenção ou redução na taxa de inscrição NÃO são automaticamente inscritos no vestibular Fuvest 2018. É preciso, posteriormente, fazer a inscrição no período de 21 de agosto a 11 de setembro, no site que será indicado pela Fuvest.”

Lilith Cristina, candidata a vaga na USP

Então perceba que além de diversos “papéis” que devem comprovar se o candidato não pode mesmo pagar os R$ 170,00, se aprovado para isenção ou desconto, o estudante ainda não está inscrito para fazer a prova. São inúmeras barreiras que já fazem uma pré-seleção minuciosa de quem entra e de quem não entra na maior universidade do país. Tudo isso, dá corpo para a característica elitista da USP, uma das razões, para só em 2017, passar a ter cotas para negros.

Lilith Cristina, integrante da ColetivA Ocupação, grupo de estudantes que se conheceram durante as ocupações secundaristas de 2015 e que hoje, além de estarem prestes a entrar na universidade, fazem intervenções artísticas e culturais por SP, declara: “sou negra, agora eu só estudo, não trabalho, mas posso pagar a taxa, tenho a ajuda de meus pais, mas e o restante? as pretas e pretos que trabalham e estudam? esses vão juntar essa grana absurda, vão pagar a taxa e se passarem, provavelmente não conseguirão se manter no campus. É tudo muito caro. Transporte, alimentação, material é tudo muito inacessível para quem não tem uma família que possa apoiar financeiramente. Isso é um absurdo.”

SOS Isenção

Artur Santoro, um dos organizadores da festa e membro do coletivo “Por Que a USP Não Tem Cotas?”

Para  ajudar os candidatos que não conseguiram isenção e não tem como pagar a taxa de inscrição o coletivo “Por que a USP não tem cotas?” vai organizar uma festa beneficente que vai reverter os ganhos para o pagamento da taxa de quem precisar. Com Rico Dalasam e MC Dellacroix a festa busca conseguir ajuda de que não está tão próximo ao movimento. O evento vai acontecer nesta sexta feira (01/09) das 23:00h com previsão de termino as 05:00h do sábado, no FLASH CLUB (R. Rego Freitas nº 56).

Artur Santoro, estudantes de Ciências Sociais, um dos organizadores da iniciativa, conta:

“a festa é como uma continuação da nossa luta por cotas. Conseguimos conquistar uma política de cotas na USP, que ainda não é a ideal, visto que não contempla as reivindicações do movimento indígena, mas já é um enorme avanço. O coletivo ‘Por que a USP não tem cotas?’ usa a estratégia das festas beneficentes, porque a gente acha que é uma boa forma arrecadar fundos para quem não têm condições de estar na USP. Isso é um instrumento de nossa luta, ajuda a colaborar com a juventude negra periférica. Lutamos para tornar a USP cada vez mais preta e indígena.”

Histórico

A USP foi a última universidade pública de São Paulo a adotar o sistema de cotas. A Unesp adota o sistema desde o vestibular de 2014, a Unicamp aprovou em maio deste ano a adoção do sistema já para 2018 e a USP aprovou no ultimo junho. As universidades federais já adotam a política de cotas desde 2012 quando entrou em vigor a  Lei nº 12.711/2012.

Para pressionar o conselho universitário a adotar a política de reservas de vagas alguns alunos da USP criaram no ano passado o coletivo “Por que a USP não tem cotas?”  que passou desde 2016 a organizar atos que mobilizassem a opinião pública, cidadãos e os alunos da universidade para engrossar a revindicação. O movimento realizou também duas festas para a luta por cotas. Uma em 2016 e outra em junho deste ano realizadas pela luta por cotas e também contou com músicos de grande nome para garantir o apoio. Um mês depois da festa o conselho universitário aprovou a adoção de cotas em 2018.

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