Cidinha da Silva: Uma mãe chora em Serra Leoa

Pessoas desconhecidas insistiam em enviar à cronista um conjunto de seis fotos e um vídeo sobre o deslizamento de terras em Serra Leoa. Dezenas de envios, mais de uma centena.
Ilustração Joana Brasileiro

O desastre contabilizou (parcialmente) 500 pessoas mortas e 600 desaparecidas. As fotografias mostravam caminhões transportando corpos, equipes de socorro e homens cavando sepulturas rasas, além de um amontoado de caixões a espera de corpos. A cronista divulgou as duas últimas fotografias no afã de contribuir para a documentação de uma tragédia ocorrida em África que pouca atenção merecia da imprensa brasileira.

Uma foto em especial, a de corpos enfileirados, muitos deles semi-nus, aguardando sacos mortuários, identificação, certidão de óbito e enterro numa das valas comuns, como aquelas das 4.000 pessoas vitimadas pelo vírus Ebola, entre 2014 e 1026, a cronista recusou-se terminantemente a divulgar. Existe um voyerismo em torno dos corpos negros em exposição e decomposição com o qual não se pode compactuar.

No vídeo, uma mulher trajando roupas próprias de sua região e cultura, cantava seu desespero e as televisões mandaram a imagem para o mundo. Algumas pessoas locais evitavam olhar para ela, que parou de cantar por alguns segundos, mas manteve os braços erguidos e parecia suplicar por alguma coisa. Depois fez gestos pouco compreensíveis. Alguns vizinhos de infortúnio a evitavam ainda mais. Pareciam dizer “ela é louca, não deem atenção a ela”, como se assim pudessem impedir a materialização de uma dor que era de todos. A cronista pensa que a senhora de Serra Leoa teria todos os motivos para enlouquecer.

Quem seria aquela mulher? Tem uma foto dela na BBC News, na qual chora muito. Outra no International Business Times, abraçada a um homem jovem, também muito consternado. Ali ela parece já ter chorado todo o sangue de suas perdas. O olhar é marcado pela raiva dos injustiçados que ainda estão vivos. A legenda da fotografia informa que ela perdeu um filho no deslizamento de terras. E quem é que sabe quantos outros entes queridos a senhora pode ter perdido em tragédias anteriores? É um somatório de perdas a vida de quem sobrevive a tanto desenredo.

Como disse a jornalista Alimatu Dimonkene, toda ajuda dos países africanos, da diáspora negra e de outros países a Serra Leoa é bem-vinda. Também a contribuição das pessoas que fazem doações individuais e mobilizações pela internet, contudo, é preciso assegurar apoio integral e de longo prazo para os sobreviventes. Algo que inclua suporte material, de saúde e psicológico para que possam refazer a vida depois do desastre.

A cronista não divulgou o vídeo que documenta o desespero da senhora de Serra Leoa porque isso lembra muito a foto viralizada de Seu Jorge Penha. Lembram-se dele? O Pai de Roberto Penha, menino de 16 anos, fuzilado pela polícia quando ele e quatro amigos voltavam para casa, no Morro da Lagartixa, depois de comemorar o recebimento do primeiro salário de Roberto.

Seu Jorge Penha era aquele homem negro de olhar austero e rosto endurecido, no qual o fotógrafo flagrou uma lágrima seca e seu rastro de sal na pele. A cronista duvidava de que o grosso do pessoal que viralizou a foto o tenha feito em solidariedade ao pai, órfão do filho. Talvez tenha sido apenas a propagação de uma imagem da dor negra, plasticamente bonita.

Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016).

Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.

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Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016). Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.
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