Cidinha da Silva: Atotô

Agosto é mês de gosto. E das coisas que mais me encantam é ver o povo de Obaluaê na rua, meu povo também, alimentando a tradição de distribuir saúde e fartura pela pipoca. Quem tem saúde, tem fartura.
Uma senhora esmola na Avenida Sete acompanhada de um irmão mais sorridente e sem sofrimento no rosto. Contribuo e abro a bolsa para receber a pipoca e fazer meu ritual em casa.
Sigo o caminho em direção ao Castro Alves e passo por outro irmão, de cabelos e óculos hytech que, de pé e altivo, diz algumas coisas que não entendo bem. Só ouço o final, Obaluaê. Contribuo outra vez e ele me convida, “venha mãe, venha tomar seu banho de pipoca”. Agradeço e digo que levarei a pipoca para casa. Abro novamente a bolsa, guardo a pipoca que ele me oferece; nos saudamos, nos despedimos. Sim, que Obaluaê me guarde, me dê saúde e me guie. Sigo meu caminho.
Na volta vejo o rapaz de Obaluaê atravessando a rua com a sacola de dinheiro nas mãos e o Peji-móvel ali, sozinho no ponto de ônibus. Oxente, onde vai esse menino? E se um desses fundamentalistas destruir o Peji? Meu instinto candomblezeiro quase me faz parar para protegê-lo de qualquer atentato.
O irmão de Obaluaê continua andando com a tranquilidade de quem sabe o que faz. E o Peji quietinho lá, sereno. O dinheiro ele leva porque os fundamentalistas são loucos, mas não o rasgam, sabem reconhecê-lo e cultuá-lo. O poeta já nos contou. Mas, o Peji de Obaluaê pode esperá-lo e se manterá íntegro. E se bulirem nele, que se vejam com Obaluaê. Atotô, Senhor da Terra!
Ilustração (montagem) Joana Brasileiro | Jornalistas Livres
Abaixo as ilustrações originais de  Bruno Müller , Menote Cordeiro e Caco Bressane
Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016).

Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.

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Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016). Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.
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