Teria Haddad aprendido mesmo?

Algumas questões ao ex-prefeito Fernando Haddad a propósito de seu recente artigo
Fernando Haddad - 21/12/2016 - Na aprovação da lei de apoio ao circo. Foto: Fábio Arantes / SECOM

Caro senhor Fernando Haddad,

Seu artigo para a revista Piauí ficou muito bom. Diríamos até que sua erudição nos iluminou. Esperamos, contudo, que ele, o artigo, signifique o início de uma discussão e não um fechamento de questão, porque nos suscitou muitas dúvidas.

O senhor começou seu texto falando mal de Dilma e se alongou, na mesma toada, por algumas páginas. Há muitas críticas à ex-presidenta. O senhor apontou que ela errou ao não aceitar a municipalização da CIDE. Afirmou que ela errou ao cogitar sobre o represamento da tarifa de ônibus e, mais ainda, que “não se chega a um erro deste tamanho sem ter feito um percurso todo ele equivocado”. Em outros termos, o senhor disse que ela cometeu uma sucessão de erros, “um percurso todo ele equivocado”.

Sua avaliação é de que eram necessários ajustes no rumo da política econômica, quando ela se reelegeu. O senhor escreveu assim: “era evidente que ajustes tinham que ser feitos porque, entre outras coisas, o governo tinha comprado uma agenda equivocada, elaborada em parte pela Fiesp: desonerações, redução da tarifa de energia elétrica, swap cambial, administração de preços públicos etc.”

“A relação de Dilma com São Paulo nunca se resolveu completamente.” Com essa frase o senhor a acusou de não tratar São Paulo de modo adequado. Acredita, no entanto, que ela “comprou” uma agenda elaborada pela Fiesp? O objetivo é jogar São Paulo contra Dilma? O senhor foi o único que, no nível federal, cuidou adequadamente de São Paulo, desde 1932, quando ministro da Educação?

Até mesmo na frase “eu diria até que sempre me tratou com consideração”, está subentendida uma crítica a ela. Por que o senhor resolveu criticá-la publicamente neste momento? Foi para justificar sua derrota no primeiro turno ou o senhor está mirando uma disputa futura? Ou quem sabe uma outra razão que nossa limitação não alcança?

O senhor acredita que essas críticas vindas do senhor, nesse momento, ajudam no combate ao golpe?

O senhor encomendou um estudo elaborado pelo economista Samuel Pessoa e o apresentou à Dilma. O estudo era sobre a municipalização da CIDE, Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, que o senhor preferia ao aumento da tarifa dos ônibus. Samuel Pessoa, assim como a grande maioria dos economistas da GV, é bastante conhecido por seu neoliberalismo radical.

Em 2015, ele afirmou à revista Época que “Com o PT, não dá para conversar”. “O economista diz que o problema estrutural das contas públicas só poderá ser resolvido em outro governo, porque não dá para fazer pacto com os petistas”, escreveu a revista. Para ele a Constituição de 1988 não cabe no orçamento: “O problema de a gente continuar com um contrato social cuja dinâmica não cabe dentro do PIB é que a gente pode escorregar para uma hiperinflação e chegar no cenário da Venezuela.”

É a opinião de um notório neoliberal que o senhor queria que Dilma aceitasse? O senhor comunga as mesmas ideias de economia política que Samuel Pessoa? De que maneira fiar esse economista contribui para a resistência contra as reformas? A propósito, o senhor é favorável às reformas? Acha que, como assegura Pessoa, a Constituição de 1988 não cabe no orçamento?

O senhor conta o que sentiu na saída da primeira fatídica reunião com Dilma da seguinte forma: “O que eu sentia ali era algo que já havia experimentado algumas outras vezes na vida: mais do que um mal-estar ou uma simples angústia, era uma espécie de intuição, a sensação nítida de que algo muito sério estava se passando, de que havia um risco real e iminente.”

O senhor se resignou à negativa de Dilma ou continuou a lutar pelo que acreditava? O senhor tem essas intuições ou dons premonitórios com frequência? Anteviu o golpe?

O senhor acredita que “numa democracia, até uma imprensa ruim pode ajudar. […] Em dezesseis anos de vida pública, sempre mantive com as principais famílias proprietárias dos meios de comunicação uma relação cordial e respeitosa, em que pesem nossas diferentes visões de mundo. Não dispensava interlocução com os Marinho, os Frias e os Civita.”

Aqui o senhor nos embatucou. Poderia explicar em que medida a Veja ou o Jornal Nacional têm ajudado nossa democracia? Mais importante do que isso, seria saber com quem o senhor julga estar dialogando quando faz essas afirmações, poderia nos revelar? A interlocução com os Marinhos, os Frias e os Civitas o ajudou em quê? O que o fez divulgar esse texto em uma revista editada por uma sociedade entre um membro da família Moreira Salles (Unibanco) e três membros da família Civita?

O senhor se disse pressionado, lá em 2013, pela decisão do prefeito do Rio de adiar o reajuste e resolveu “ir ao Palácio dos Bandeirantes e propor ao governador Alckmin que fizéssemos juntos o anúncio da revogação do aumento”. Olhado de hoje, o senhor julga acertado ter unido sua imagem à de Alckmin naquela ocasião?

O senhor contou sobre o diálogo com seu filho, no momento de tristeza pelo caminho que tomou a negociação da tarifa. Que ele teria tentado animá-lo dizendo: “Mas, pai, ainda faltam três anos e meio de governo.” Ao que o senhor respondeu: “Eu sei, filho, mas aconteceu uma coisa muito séria e não há como não viver o luto.” Como esse assunto da primeira reunião com Dilma é bastante recorrente em seu texto, gostaríamos de saber se esse luto passou? E quando?

O senhor termina com a afirmação de que a escolha, do modo como se darão as eleições do próximo ano, está sendo feita agora. Poderia, por fim, nos esclarecer qual tem sido sua atuação nessa escolha, nesse momento?

“Li praticamente todos os clássicos sobre a formação do Brasil. Conhecia teoricamente o nosso país. Mas a experiência prática é insubstituível. Vivi na pele o que li nos livros.” Perdoe-nos a franqueza, não nos sentimos seguros de que aprendeu mesmo. Durante seu mandato, criticamos sua distância da população e sua tibieza na luta contra o golpe. Na primeira oportunidade, o senhor escreve uma matéria de 20 páginas, opta por um canal elitista, participante da mídia que critica, e joga a culpa de tudo que deu errado nos outros. Precisamos de mais evidências.

Um fraternal abraço.

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8 comentários:
  • Pablo Ferreira
    7 junho 2017 at 21:44
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    Haddad levou o secretário de finanças. Se não se lembra, Henrique Meirelles foi presidente do banco central no governo Lula e foi do PSDB. Isso não importa porque quem faz o direcionamento da política econômica é o chefe de estado e não o ministro ou secretário só porque ocupa a pasta na área econômica.

    Quanto a relação que teve com a imprensa, Haddad falou no passado e mostrou dificuldade na relação quando escreveu. Muitas vezes ele criticou o não jornalismo da Folha, e mais ainda quando era prefeito.

  • Ronen Altman
    8 junho 2017 at 0:16
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    Resposta rasa e agressiva. Leia de novo. O texto não pede concordância e sim debate. E ironia, sarcasmo não estão no cardápio. Um fraternal abraço

  • Alexandre Rafael Barbetta
    8 junho 2017 at 8:08
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    Esse artigo contrapondo o texto de Haddad tem pontos que eu concordo, mas acho que tentar desqualificar o ex prefeito só porque ele fez algo que o PT não está acostumada a fazer que é uma autocrítica, é pura imaturidade de alguém ainda acha que ser da turma precisa passe a mão na cabeça o tempo todo.

    Haddad tem toda razão quando diz que o governo federal abandonou São Paulo, que era estratégico para todo esse processo todo.

    O que o autor diz de distância da população é a diferença entre se discutir Políticas Públicas que nem sempre tem essa proximidade e a simpatia comum, com o oba oba de se vestir de gari e ir para rua.

  • José Jairo Costa
    8 junho 2017 at 9:02
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    Faltou uma pergunta: O Sr. Está de malas prontas para o PSOL?

  • Luiz D. Lago
    8 junho 2017 at 12:00
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    E seria este o momento de atacar um dos melhores quadros – sujeito a todas as críticas, inclusive a desta matéria – que dispomos na esquerda? Ou a “esquerda pura” não conta com Haddad? Todo o resto do artigo dele foi esquecido porque era preciso concentrar-se em sua crítica a Dilma e aos seus “desvios” por relacionar-se com neoliberais. Se for o caso, podemos riscar Lula do mapa. Parece-me que rolou um certo ciume por ele ter escolhido a Piauí e não o Jornalistas Livres para seu artigo.

  • Genovan de Morais
    8 junho 2017 at 22:31
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    Parabenizo sr. César pelos provocadores questionamentos ao Fernando Haddad. Torço para que ele responda com honestidade e não com maneirismos de quem acende uma vela a deus outra ao diabo cuja finalidade seja viabilizar-se como inquilino do Planalto em 2018. Poderá até ser uma opção interessante, mas se sua plataforma se inicia inspirada em uma nova “Carta aos Brasileiros”, continuaremos indigentes.

  • Gilberto
    9 junho 2017 at 11:25
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    Ele só quis dizer que radicalismo não leva a nada, que os políticos mais que conceitos pré concebidos do que a realidade.

  • Roberto de Almeida Silva
    11 junho 2017 at 15:50
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    Gostarei muito se ele responder.

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