SE ÍNDIO AMEAÇA, SEI BEM, É EM SUA GRAÇA

ensaio sobre a ferocidade do conquistador e as terras foragidas

A motocicleta leva a mandioca da roça à casa para ser ralada e o polvilho dá o pão em folhas. Facilitar a vida é bom e os instrumentos são muitos ao cotidiano que insiste.

Chegávamos à beira, muitas seriam as horas sobre água lisa no motor cinquenta, cifra de tempo razoável ao percurso. Ir sempre surpreende as expectativas. Ir é verbo de movimento, aberto, contencioso que modifica a vida, pois nunca se volta o mesmo, seja qual for o motivo das partidas.

A cada minuto a terra acolhe, conhecimentos  remotos desarmam preconceitos, quebram os parâmetros e impõem razões circulares. Nas cidades nos perdemos em vias, na Amazônia nos desconsolamos ao horizonte de falsas escolhas. Não temos nada entre a capital do país e as guerras do mundo. Evidencia-se quando estamos no mato, o frio consumo nos condena aqui.

Crianças brincam com flores de pequi. Mensagens daqui? Sei lá, o mundo andava tão confuso nas metrópoles de meu país, meses atrás até vi policiais com bombas atacarem os indígenas na capital, enquanto portavam flechas e arcos. Aqui o efeito moral das armas são imagens de brincadeiras com o ambiente e seus seres, desarmam qualquer reação que não seja a paz. O que nos ameaça entre os povos indígenas? Será a chuva que faz brotar e prescinde de financiamentos ou insumos?

Homens cobrem uma casa entre o universo mudo da aldeia, apenas trabalham em cooperação após legítimas trocas, sem bancos ou estatutos, apenas em entendimentos honestos para a vida em comunidade. Viver em vão não é espaço para povos tradicionais, de tudo se fia conduta e postura.

Futebol sem bola se mostra incidente campanha dos Congressistas pela  revisão dos territórios tradicionais, quando na aldeia nos pomos. Índio segue Romeu, de tal Julieta a Nação sempre  pecou em suas falsas e espúrias necessidades de conquista do território e martírio de muitos. Não são agro os povos tradicionais, e são fortes, sem desculpas ou códigos de conduta ocidental, acima das vontades e vaidades impera a ordem. Ser indígena no Brasil, cheio de si,  é  a honra que carecemos, por mais que sopre o vento revanchista e machista desses ares de agora, em  tempos de caça às bruxas. Eu te amo, sei bem, é expressão revolucionária em hora de ódio e preço. Século Vinte Um, mas as estrelas são as mesmas no céu. E no entanto se mata e se morre.

Por mais que interponham, segue canoa de pau, em equilíbrio para os seus, e conduz e farta, se faz em produto ao valor do trabalho de outros sonhos e decisões.

Céu livre, constelação em flâmula, onde a onça pega o veado na ordem das coisas. Avante em sacrifícios e profundas cicatrizes segue índio nos interiores movimentos nossos . Molejo, sambas indeléveis, rumbas e maracas em rock roll. Yawalapiti e Kamayurá veem longe e ressignificam.

Se um índio passa de repente entre paus, vestido nu para o dia da falta e em festa, não se assuste, é forte, é límpido, é honra. Quem foi que disse que ser moderno, sem apraz, é ser mercado? Mentiras da América, facilidades entre a vida dura e gerencial dos que corrompem. Brasil vivo encontro assim.

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Um comentário
  • Amanda Monteiro
    30 junho 2017 at 15:07
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    Delicadeza demais, Hélio. <3

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