O PAI SOLTEIRO DAS ÁGUAS

ensaio sobre a solidão do rio e suas fertilidades

A barranca vermelha reluz ao crepúsculo que se anuncia, como carne na margem, morada de martins-pescadores e papagaios que, em furos na terra elevada, fazem seus ninhos. O Xingu vai juntando suas esposas ao longo de cada curva das águas e, galante, recolhe suas mulheres em diversos afluentes.

Nas águas douradas das tardes anda-se de bicicleta sobre seu manto, desafiando o grande abraço da serpente das fazendas em terras envolventes ao Parque Indígena.

O rio, pai solteiro das águas que no mar se casa, vai embalando as pretensões dos deuses, nossos mitos. Como entre os Orixás  dos pretos, quando Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum, aqui é a cobra grande que fertiliza  seus meandros e, tais peixes grandes, pulam de canto em canto, criando suas lagoas que acolhem as etnias em solos sagrados. As águas e as árvores, noivado que prima diversidade e mutualismo do fino convívio e fundamenta a tolerância.

Terras Indígenas, todos deveriam sê-las. Incompreensível furtar aos povos seu equilíbrio e tradições. O que resta de bom senso em meio ambiente insere-se entre os povos tradicionais e os que o zelam e os atribuem. Há muito, os grandes indigenistas nos deixaram e seus discípulos, alguns valentemente, ainda acalanta-nos, mas é necessária guarda, vejo bem. O Agro abraça.

Nada do que vejo entre as águas, nem os cachorros bravos das aldeias, seres sensatos naquilo que há de selvagem nos hábitos, nada comparável aos esquemas animais que nas cidades devoram os políticos e seus curruptores. Aqui o animal guarda e também vira alimento, nutre a vida.

Livre decassílabo, o Parque Indígena do Xingu, índio teorema em nossa psique, provoca medo do futuro que em nossa porta urbana bate. Lugar de pele ao sol, corpo nu em direito e constituição, em velocidade estonteante pousa, e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida, mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias, lembra baiano Caetano cantando.

Entre fortes mãos o nacional pesadelo dissipa áspera luz e vozes. Xingu insiste.

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2 comentários:
  • O PAI SOLTEIRO DAS ÁGUAS | Jornalistas Livres | METAMORFASE
    28 junho 2017 at 21:20
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    […] Fonte: O PAI SOLTEIRO DAS ÁGUAS | Jornalistas Livres […]

  • carmen junqueira
    29 junho 2017 at 8:47
    Comente

    Fotos lindíssimas de quem conhece a alma xinguana!

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