O criminoso na Cracolândia é o Doria. Não é o nóia

"Eu clamo a quem possa nos salvar que tire esse verme da prefeitura. A cidade é mais do que ele. Somos nós."
Onde antes funcionava o programa De Braços Abertos, vêem-se moradores da Cracolândia, como Lucia Freire Moreau, acompanhada do vereador Eduardo Suplicy. O programa De braços abertos foi extinto por João Doria

Por Paulo Faria, diretor da Cia Pessoal do Faroeste, especial para os Jornalistas Livres

“O criminoso na Cracolândia é o Doria. Não é o nóia.” Foi isso o que ouvi em coro quando cheguei à Cracolândia para ver e entender o que está acontecendo ali. São famílias pobres que pedem escola, habitação, segurança, limpeza e água, que Doria mandou tirar do Braços Abertos, para que os usuários não tenham água pra beber.

É vil demais.

Passei o final de semana fora e voltei ontem à noite. Após a manhã no Faroeste em reunião, fui em seguida até a Cracolândia. Presenciei mais uma cena inescrupulosa, criminosa e doentia do prefeito. Doria foi até a Rua Dino Bueno, na hora do almoço, acompanhado de uma caravana de bombeiros, polícia – com um caminhão cheio de cães farejadores. Em alguns momentos, os cachorros eram chutados pelos próprios policiais. Ah, havia ainda caminhões de construtoras.

Não sei se Doria foi vestido de bombeiro, ou de polícia americana, como ele foi no domingo. Mas estava com seu cabelo acaju, que teve ter pintado em NY, para onde viajou em companhia do deputado Rocha Loures, do PMDB-PR –aquele que recebeu a mala de R$ 500 mil da JBS, e foi afastado do Congresso Nacional.

Doria derrubou uma parede de um casarão histórico, acompanhado da Rede Globo, que não usa mais em seus equipamentos a logomarca da empresa, mas somente um jaleco azul em que se lê “imprensa”.

Quando ele foi filmado, inaugurando a quebradeira que iniciou, a escavadeira derrubou uma parede. Atrás dela, famílias de um cortiço, que moram ali há mais de 30 anos, receberam sobre suas cabeças, em sua morada, em sua cama, os entulhos. Logo, Doria foi escorraçado pela população. Encaminharam-se os seres humanos feridos para um hospital.

Quando cheguei, essa cena já tinha sido filmada e passada na Globo. Um ao vivo à custa de mortos. Estavam na rua a ouvidora, a defensoria, o conselho tutelar e militantes de direitos humanos. Havia rumores que ainda tinha gente no prédio que começou a ser demolido. Mas o corpo de bombeiro não permitiu que ninguém, nem a defensoria, nem a ouvidoria e nem o conselho tutelar, entrasse ali. Disse que não tinha ninguém, e que o prédio estava em risco de desabar.

Parte dos moradores queria entrar para tirar seus parcos pertences, que Doria chama de “lixo”. A mãe da rua Lucia Freire Moreau me levou pra ver o seu quarto num cortiço ao lado que também deve ser demolido. Ela queria me mostrar o painel que estava construindo. Entrei. Fiquei parado em lágrimas diante do que ela criou. Havia ali algo de religioso. Aquela obra deveria ser preservada e estar num museu de humanidades. Uma cartografia construída, um resumo dos seus 30 anos vivendo na Cracolândia. Imagens fortes e genialmente enredadas. Tudo ali. Tudo.

Ao sair de lá, vi que três casarões do inicio do século, que eram cortiços, foram incendiados pelo prefeito. Um art déco e dois neoclássicos. Todo o entorno do Largo Sagrado Coração de Jesus é histórico. Um dos poucos conjuntos arquitetônicos dessa época preservado. E é isso o que está por trás da ação que pretende comover a plateia bestial com a derrubada da cracolândia pra construir o projeto Nova Luz, seu e de todos os vampiros desta cidade, incluindo o governador não menos monstruoso, Geraldo Alckmin.

Doria não pode destruir aqueles prédios. É a história da cidade.

No domingo, a assessoria do prefeito, ligou pra Rede Globo, às 4 da manhã para informar que às 6h haveria a ação criminosa. E a Globo foi. A TV agora tem comunicação direta com o prefeito, pois assim ele fica na mídia nacional, pra alavancar seu nome à presidência do País.

Globo criminosa

Não à toa, Doria fez isso durante a Virada Cultural, pra ocupar mais o espaço na mídia. Perdeu e a decência e a dignidade.

Saio dali e vou até a praça Princesa Isabel, onde fica a estátua do Duque de Caxias. Bem no meio, vejo uma roda com 500 usuários. Em volta, muita polícia. Wellington, um morador do entorno, me fala que eles vão atacar os usuários a qualquer momento. A PM diz que ali concentram-se armas e traficantes. A polícia persiste com essa mentira para justificar os ataques. Wellington me fala que desde domingo todos estão em pânico. O comércio abre a meia porta e fecha antes das seis. E ninguém sai de casa depois.

Wellington já fez as compras para hoje e amanhã, pois não sabe o que vai acontecer, se ficará sitiado novamente em sua casa. Cada vez mais helicópteros sobrevoam a área e a avenida já está com trânsito parado. Vou andando até em casa e perguntando a todos o que acham. Pela primeira vez, ouvi de todos e todas, que o Doria é um louco, que essa ação foi desastrosa. A avaliação é compartilhada mesmo por pessoas que votaram nele. Ninguém quer uma Cracolândia aqui, mas todos querem ajudar a resolver a questão que é humana e de saúde. Nunca ouvi isso antes ali. Todos estavam contra o prefeito, que nunca foi à região antes e mandou a polícia pra cuidar dos doentes com bombas. Alguns eram seus eleitores arrependidos.

Doria é um criminoso, um fascista, e São Paulo não pode permitir que esse monstro continue à frente da cidade. A Câmara tem que fazer alguma coisa. O Ministério Público tem que fazer algo. A Defensoria tem que defender o povo. Ele está matando os munícipes da cidade. Seja quando ele volta com a velocidade alta nas marginais, o que aumentou o número de mortos em desastres e atropelamentos. Temos gravada na nossa retina a cena dele jogando a flor da gentil mulher que foi pedir em nome das vidas que se perderam.

Ao derrubar todo o nosso bairro, ele está matando os pobres que aqui vivem. Que tanto já sofreram. Excluídos dos direitos básicos garantidos na Constituição. Cinquenta milhões de brasileiros quase escolheram o Aécio Neves pra presidência. Não acreditando em todas as provas que o envolveram em roubos, tráfico de drogas e assassinatos. E agora, a maioria da cidade de São Paulo escolheu outro criminoso pra administrar essa cidade tão linda e tão acolhedora, com um povo deslumbrante, feito de todas as partes do mundo.

Eu clamo aqui pra que nos revoltemos com o prefeito e que peçamos a quem possa nos salvar que tire esse verme da prefeitura. Dória não pode seguir à frente da cidade. E nem seguir seu objetivo de chegar a presidência do Brasil.

São Paulo não pode permitir. A cidade é mais do que ele. Somos todos nós. O criminoso é o Doria, não é o nóia.

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Um comentário
  • Ronildo
    8 junho 2017 at 14:40
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    Gostaria de dizer que sou morador da região da cracolândia e não concordo totalmente com a opinião expressa pelo autor do texto acima. Acho equivocado polarizar o problema de décadas de anos em somente dois lados, prefeito e nóia. Em nenhum momento o autor cita um dos principais causadores deste problema, o traficante. Também discordo da ideia de que todos os moradores da região foram contra a ação na cracolândia. Tem muitos a favor. Porém quero ressaltar que, como morador da região e cidadão de bem, acho que a cracolândia tem que ter um fim sim. Se somarmos força poderemos acabar com este mal. Cada um faça a sua parte de acordo com a sua formação e consciência. Todos podemos ajudar, e cito como exemplo, o seguinte texto que vocês podem ler em: http://noticias.r7.com/sao-paulo/carioca-encontrado-por-amigos-de-infancia-na-cracolandia-de-sp-morre-em-clinica-08062017

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