Para entender a UNE e seu congresso

Por Anderson Bahia especial para os Jornalistas Livres

Batuques, palavras de ordem, dezenas de mesas de debates e grupos de discussões, reuniões diversas entre grupos políticos e, no meio disso tudo, uma grande manifestação pelas ruas de Belo Horizonte pedindo eleições “Diretas Já” para a Presidência da República. Assim tem sido o 55º congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), que teve início na última quarta-feira (14) e se encerra hoje (18) na capital mineira.

Rostos e sotaques de todos os estados brasileiros se encontram no evento para discutir e aprovar os rumos da entidade pelos próximos dois anos, prazo da gestão que também será eleita no congresso. A edição realizada esse ano marca o início das comemorações dos 80 anos da UNE, a ser celebrado em 11 de agosto.

A presidenta da entidade cujo mandato se encerra logo mais, Carina Vitral, destaca a importância política da atividade. “Esse congresso é histórico. É o primeiro após o golpe político ocorrido em 2016 e que destituiu uma presidenta da República. E vem muito oxigenado por uma geração de jovens que iniciaram sua participação política nas ocupações e inúmeras mobilizações ocorridas nas universidades no último período”, disse.

O crescimento pelo interesse com a política entre a juventude, percebida nas redes sociais e em atividades políticas ocorridas em todas as regiões do país, se configura também no evento da octogenária entidade. Esse congresso da UNE é a maior entre todas as organizações do movimento social do país.

UNIVERSIDADE DA POLÍTICA BRASILEIRA

Além de ser o maior no movimento social brasileiro, o congresso da UNE é também o mais plural. Ao todo, 26 grupos políticos se organizam para participar. Alguns desses movimentos são liderados por juventudes partidárias, como a do PT, e outros são correntes políticas autônomas formados nas universidades para debater política e disputar as eleições do movimento estudantil, como centro e diretórios acadêmicos.

Engana-se quem acredita que todos esses grupos tem em Marx sua principal referência teórica. O movimento “Vem que a UNE é Nossa” é liderado pela juventude do PSDB e durante todos os dias da atividade cantou “palavras de ordem” exaltando Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. Durante as votações sobre conjuntura (atualidade política), educação e movimento estudantil defenderam as reformas apresentadas pelo governo Temer, rechaçadas pela maioria dos demais grupos políticos juvenis ali presentes. No entanto, também expressaram sua rebeldia ao defenderem a saída imediata de Michel Temer da presidência da República, destoando da direção nacional do PSDB que na semana passada aprovou a permanência em seu governo.

A defesa dessas propostas revelou o elevado nível de domínio político por parte das principais lideranças. Temas como a crise econômica mundial, imperialismo, os profundos impactos sociais das medidas de Temer e os temas relacionados à educação foram abordados com números e argumentos construídos à maneira como muitos parlamentares no Congresso Nacional não conseguem discutir.

Não à toa alguns conhecidos líderes políticos da atualidade participaram da UNE quando jovens. Nomes como os senadores Lindberg Farias (PT) e José Serra (PSDB) e o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) foram da UNE quando jovens. A contribuição da UNE para a política nacional não ficou só no passado. Revelada pelas mobilizações em defesa da democracia, Carina Vitral foi candidata à Prefeitura de Santos em 2016.

A ex-presidenta da entidade, Virginia Barros, afirma que essa contribuição é diferencia porque “a juventude que constrói a UNE e suas lutas são movidas pelos sonhos e pela ligação com as causas defendidas pela organização. Não possuem interesses menores que esses”.

AS DIMENSÕES DO CONGRESSO

Nos cinco dias cinco dias de programação, nada menos que 15 mil estudantes dos 26 estados e do Distrito Federal participam da atividade. Todos deslocaram-se para Belo Horizonte em caravanas de ônibus.

Os estudantes do Amapá ainda fizeram o percurso até Belém, capital do Pará, singrando o rio Amazonas de navio e, de lá, entraram nos ônibus que os trouxeram até o destino final. Aqueles oriundos de Amazonas e Roraima fizeram a viagem de avião. Algumas delegações, como a do Acre, passaram até quatro dias na estrada. Governos estaduais, prefeituras e universidades contribuíram com o custeio do transporte.

Para descansar após os dias repletos de atividades, os estudantes ficaram em 17 alojamentos distintos. Foram cedidas pelo governo do estado de Minas Gerais 16 escolas públicas e mais o Centro de Convenções Risoleta Neves, de 70.000 m², situado na cidade de Vespasiano, ao lado de Belo Horizonte. Cada um é responsável pela sua própria acomodação e geralmente dormem em barracas e colchonetes que trazem em suas bagagens.

A programação contou 177 convidados. Intelectuais, artistas, parlamentares e líderes políticos expuseram análises, estudos e opiniões em dezenas de debates realizadas principalmente nos primeiros três dias, nas dependências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os últimos dois foram dedicados a “plenária final”, na qual os participantes aprovam as propostas que serão defendidas pela entidade na próxima gestão. O encerramento, mais tarde, culminará com a eleição da nova diretoria.

CONGRESSO FINALIZA UM GRANDE PROCESSO DE MOBILIZAÇÃO

O congresso da UNE teve sua convocação lançada no dia 20 de março. Na ocasião, ocorreu, no campus Vergueiro da UNIP, em São Paulo, o 65° Conselho de Entidades Gerais (CONEG), fórum que reúne as entidades estudantis de representação estadual, Diretórios Centrais de Estudantes (DCE´s) e Diretórios Acadêmicos (DA´s) responsáveis por aprovar a data da atividade e toda a dinâmica até sua realização.

De lá até o congresso, 3,5 milhões de estudantes de aproximadamente 90% das instituições de ensino superior no Brasil participaram das atividades que compõem o calendário de mobilizações até o evento. Eles elegeram cerca de 7.200 delegados (participantes com direito a voz e voto). Desses, por volta de 4.400 se credenciaram no evento. Os milhares de outros participam na condição de observadores (participantes com direito a voz nos debates, mas não ao voto).

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Um comentário
  • Franci Brito
    19 junho 2017 at 10:37
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    Eu vejo futuro aí….

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