A palavra ao Acampamento Terra Livre

Texto: Laís Vitória Cunha de Aguiar. Fotos: Christian Braga.

‘Naquele tempo político (referindo-se a época da Constituinte de 1988) recebia a gente muito bem. Só ligava, marcava e ele recebia nós, agora hoje estão usando bomba lacrimogênea, pimenta spray para receber nós lá. Hoje, dia 26, era para ir 80 indígenas, foram só 60. Lá barraram e pediu pra entrar somente 20. Aí lá criaram outras pequenas confusões.’- Cacique Paulinho Paiaka, etnia Kaiapó.

Mesmo em tempos turbulentos como o nosso, o Acampamento Terra Livre sobrevive, assim como seus participantes sobrevivem há quinhentos e dezessete anos de colonização. O acampamento de 2017 foi o maior que tiveram até agora: ‘Mais de quatro mil indígenas, cerca de 200 povos de todas as regiões do país, estiveram presentes(…) A estimativa inicial era que cerca de 1,6 mil viessem à capital federal.’ (APIB)

Foram quatro dias de intensa atividade, nos quais resultaram no ‘fortalecimento do movimento nacional, envolvimento de vários povos que ainda não haviam participado das mobilizações, além de junto ao governo demonstrar que os povos indígenas permanecem vigilantes para defesa de seus direitos.’- Ângela Katxuiana, da etnia Katxuyana.

Tanto a Ângela, de 34 anos, que trabalha na Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará – FEPIPA, e é conselheira da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB e membro do Conselho Nacional de Política Indigenista – CNPI, quanto o cacique Paulinho, carregam em suas histórias a força e a tristeza da luta indígena.

Primeiramente, Ângela representa a garra das guerreiras indígenas, que além de lutar pela terra também precisam lutar pela própria igualdade de representatividade entre os indígenas.

A história do seu povo, ela me conta, remonta a ditadura militar, da qual também foram vítimas: em 1968 eles foram levados do seu território tradicional, na cabeceira do Rio Cachorro e Trombetas, no Pará, para o Parque Indígena Tumucumaque, onde a entrevistada nasceu e cresceu.

A justificativa para o crime foi uma epidemia, ‘Mas sabemos que foram interesses, nessa região se instalaram grandes mineradoras. Passamos mais de 40 anos sofrendo na terra dos “outros”, tentando não perder nossa língua e cultura. Muitos de nossos velhos morreram de depressão nessa transferência, afinal não sabiam por qual motivo foram tirados de sua terra.’

A partir de 1998 eles começaram a voltar em uma longa jornada para casa. Ela me conta que até hoje tem indígena voltando para sua terra, pois voltam aos poucos de carona.

A demarcação de suas terras, ‘única forma de reparação de nossas perdas’, afirma, ainda não foi realizada.  Suas terras indígenas (TI) foram publicadas na DOU (Diário Oficial da União), assinadas pelo presidente da FUNAI, João Pedro. O RCID foi publicado no dia 22 de outubro de 2015, ou seja, ainda faltam mais quatro passos para a terra ser realmente considerada deles. O estudo e organização de todos os documentos começou em 2003.

Atualmente estão abrindo aldeias nos locais das antigas aldeias: ‘Nossa aldeia chamada Pur’ho Mi¨ti¨ é exatamente na aldeia antiga dos nossos avós. É questão de retomada mesmo.’

Uma luta de mais de quarenta anos por uma terra que já era deles. Essa é uma história que se repete entre os indígenas: a expulsão, o retorno, a luta constante para manter essa terra.

Já Paulinho é formado em: ‘Guerra, igual capitão, general, marechal. Por quê? Por causa das lutas que ouvi dos velhos, sobre ter que mudar de um local para outro, ver outras florestas, outros rios, outros pássaros. Aí eu decidi: quando crescer quero ser igual vocês. Quando crescer vou lutar. Vou encarar esse mundo.’

Ele me conta que se sentiu enganado várias vezes pelo homem branco, e que por isso passou anos sem ver nenhum deles, passou um bom tempo se dedicando exclusivamente as tradições indígenas.

Quando era um jovem de 18 anos, ele foi chamado para participar de um projeto do governo, a Transamazônica. Ninguém explicou direito o que realmente era o projeto, o que ia acontecer, e por isso se sentiu enganado.

‘Governo chamou índio para participar do projeto, e nós fomos inocentemente. Eu vi trator arrastar aldeia dos índios Zarará, pra fazer a estrada. Eu estava acampado na aldeia que foi abandonada por causa dos tratores. Depois disso fui para o mato com o pessoal da FUNAI, protegendo pião. Hoje me arrependo da minha participação. Fui andando de Marabá a Altamira, de Altamira a Itaituba, de Itaituba a Santarém. Foi aí que comecei a ver que homem branco usa tecnologia para destruir a floresta, a terra. Passei 5 anos fora da Aldeia Kaiapó’.

Esse foi o primeiro momento em que sentiu decepcionado com o homem branco. O segundo, ele disse, foi quando dentro da própria FUNAI lhe prometeram estudo, mas não lhe deram. Depois desse acúmulo de decepções, passou um bom tempo em sua aldeia, sem contato com o homem branco.

Mais tarde, ele conta, decidiu que era hora de ir lutar fora da aldeia: ‘Trouxe Kaiapó para lutar no Congresso, para dançar no Salão Verde, e nós ganhamos 487 votos a favor de índio. É essa lei que os políticos de hoje querem acabar, criando PEC 215. Acompanhamos toda votação, nós e Xicrim. Essa é nossa luta. ‘

Depois, em 1989, lhe foi apresentado o projeto de construção de barragem lá em Altamira, que chamava de Kararaô: ‘Foi no dia 2 de fevereiro de 1989 que nós realizamos grande movimento contra a construção de barragem, e conseguimos barrar. Para barrar tive que fazer campanha na Europa pedindo apoio. ‘

O encontro de Altamira depois ficou conhecido como o primeiro encontro das Nações Indígenas do Xingu, e lá foi elaborada a carta de Altamira, importante pelo seu teor unificador entre os povos indígenas.

A mensagem que fica desse encontro, e que o Paulinho Paiaka gostaria que eu transmitisse, é a seguinte: ‘Se você se sente brasileiro, lembra que nós índios somos os primeiros responsáveis por essa terra. E devolve os direitos destruídos. ‘

Nós somos brasileiros e temos sangue de índio: precisamos relembrar essa força para sairmos às ruas e lutarmos pelos direitos que estão nos tirando. Se eles lutam há 517 anos sem perder a esperança, nós também conseguiremos.

Laís Vitória Cunha de Aguiar, para Jornalistas Livres, Brasília.

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