AOS VENTOS DO FUTURO

raro documentário de Hermano Penna, após 28 anos, se mostra mais atual do que nunca.

Novos tempos, atores e novos materiais estão chegando. O índio ouve e vê que a hora é agora, cabe a ele ocupar seu espaço, reafirmar seu lugar nas coisas e sua presença na história viva desse momento. Lideranças como Ailton Krenak, Álvaro Tukano e Sônia Guajajara devem ser conduzidas aos palácios que na esplanada se erguem, o parlamento há de ser indígena também.

Mario Juruna era índio Xavante e foi o único parlamentar indígena no Brasil nesses últimos 517 anos. Líder indígena tinha em sua posse pequeno gravador de fita cassete como arma poderosa, além de seu caráter ilibado.

Conheci Ailton Krenak no século passado. Era faculdade e lá estávamos. Eram também tempos de  Constituinte, e Krenak se foi no mundo.

O cineasta Hermano Penna.

No século 21 o reencontrei, nós já pais, mais homens e maduros. Lembro-me que era 2012 e Ailton mencionou um fogo que invadiu sua casa certa noite em Minas, daqueles que tudo levam às cinzas, e que uma película do filme Aos Ventos do Futuro, do cineasta Hermano Penna, fora extinto nas chamas. Prova única do documentário em brasas, buscamos notícias. Localizei o cineasta Hermano Penna na rede, homem nobre, e soube que de tal película só duas cópias existiam, a de Krenak e uma cópia depositada na Cinemateca de São Paulo.

Com apoio e empenho do Projeto Xingu, programa de extensão universitária da Escola Paulista de Medicina/ Unisfesp, recuperamos e digitalizamos o precioso registro. Apesar do fogo, que recicla e renova, com todo apreço aos agentes envolvidos, o Jornalistas Livres compartilha em primeira mão o oportuno e auspicioso registro.

Curioso notar que a projeção de 39 minutos inicia e finaliza com imagem da escultura de Alfredo Ceschiatti, símbolo da justiça nacional em sua suprema imparcialidade, livre. É de Ailton Krenak o depoimento final de AOS VENTOS DO FUTURO:

“Essa insistência do Estado, do governo brasileiro em não acatar as propostas que o movimento indígena tem encaminhado de criar um órgão, modernizar o órgão de política indigenista, tem feito com que o movimento procure outras formas de representação, de articulação. Uma dessas reivindicações hoje é a representação indígena dentro da assembléia constituinte, que se daria de forma direta, sem concorrer por partidos.

A base dessa nossa força é no sentido de que os povos indígenas precisam estar representados através de mecanismos que sejam permanentes, de garantia dos territórios indígenas, de garantia das condições para que essas pequenas sociedades se estabeleçam na relação com a sociedade nacional.

A política que o governo tem feito, na velha república e na nova república, é um desrespeito sistemático às formas de se organizar, às formas de se representar dos povos indígenas. Nós achamos que, na verdade, o Estado brasileiro tem muito a ganhar com a participação da população indígena no sentido que é ampliar os espaços democráticos do Estado, garantir a pluralidade, garantir que esses povos sejam representados dentro do conjunto das relações do Estado com a sociedade brasileira, e a confirmação também de que os povos indígenas, somos, os aliados do futuro dessa Nação.

Nós devemos estar presentes numa perspectiva de futuro no sentido que vamos continuar tendo terra, de que vamos continuar tendo floresta, que vamos continuar tendo condições de vida nesse país. E isso na verdade é a reafirmação de um princípio nosso, de que se existe um futuro nós somos aliados desse futuro e temos que estar obrigatoriamente nesse projeto. “

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