Valores da periferia de SP: quatro opiniões

Debate em torno da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo
Foto por José Cícero da Silva - DiCampana Foto Coletivo (facebook.com/dicampanafotocoletivo)

A pesquisa qualitativa, Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo, realizada pela Fundação Perseu Abramo, gerou discussões e interpretações nas várias cores do espectro ideológico. A direita e a extrema direita a usaram para realçar e propagandear os valores liberais dos moradores da periferia paulistana. A esquerda reagiu de maneira variada, classificando-a de inadequada e inoportuna, e até, por outro lado, louvando o aprofundamento do tema que ela proporcionou.

Pinçamos, nesse texto, ideias dos três sociólogos reunidos na Fundação Perseu Abramo para discutir a pesquisa, Andréia Galvão, Sérgio Fausto e Giovanni Alves, bem como da entrevista com Gabriel Feltran, ouvido pela Pública.

Não me parece que as perguntas da pesquisa permitam

sustentar a conclusão de que para a população

não há luta de classes e de que o Estado é o inimigo.”

Andréia Galvão

Embora considere legítima e adequada a metodologia da pesquisa, Andréia Galvão aponta que as perguntas foram muito amplas e muito abrangentes, o que dificulta chegar às conclusões indicadas pelos próprios pesquisadores. Sua opinião é de que as perguntas deveriam ter sido mais fechadas e mais alinhadas às hipóteses da pesquisa.

Sobre a conclusão da pesquisa de que a polarização política não é bem definida ou é inexistente para o público estudado, ela realça a diferença que existe entre uma pessoa, por um lado, se reconhecer como pertencente à direita ou à esquerda, ou como conservadora ou progressista, e, por outro lado, ser confrontada com posições que podem ser definidas como sendo de direita ou de esquerda.

Andréa Galvão exemplifica: “Poderíamos perguntar para o sujeito: ‘Você é homofóbico?’ E ele dizer: ‘Não, não sou, não me reconheço nessa categoria’. Mas, ainda assim, expressar posições que são posições homofóbicas.” O resultado da pesquisa seria mais evidente e objetivo se fossem pedidas avaliações dos entrevistados sobre políticas concretas.

Com relação ao empreendedorismo referido na pesquisa como aspiração dos entrevistados, a professora questiona que ele pode estar mais relacionado a uma estratégia de sobrevivência pela falta de oferta de postos de trabalho assalariado, e menos a “uma aspiração ideológica a virar patrão”.

Ela conclui: “A análise dos resultados da pesquisa ganha se a gente consegue destacar e reforçar esses aspectos contraditórios. O conservadorismo no plano dos costumes, que nem aparece muito na pesquisa, não necessariamente equivale à defesa da liberdade econômica, da não-intervenção do Estado, do mercado como valor, e vice-versa. A crítica à ineficiência do Estado, o desejo de consumo individual não equivale a demanda de menos Estado ou de menos bens de consumo coletivo. Eu não vejo liberalismo aqui.”

“A gente precisa levar em consideração essas três dimensões:

o global, o que é brasileiro, do ponto de vista da transformação da sociedade,

e o momento político que nós estamos vivendo que afeta essa paisagem.”

Sérgio Fausto

Buscando concluir que os sindicatos e os partidos estão perdendo representatividade e sendo substituídos por outras formas de intermediação, Sérgio Fausto afirma: “O que a gente sabe que está acontecendo? A gente sabe que está acontecendo, primeiro, uma mudança, que não é só no Brasil, em que as sociedades estão se tornando mais heterogêneas, em que as identidades se definem menos em função das posições ocupadas no mercado de trabalho. As classes, tal como concebidas a partir do século XIX, são categorias de análise, hoje, que têm, digamos, uma aderência mais complicada com a realidade. Isso não significa dizer que o conflito distributivo acabou. Mas as identidades se formam a partir de outros elementos também”.

Para ele as categorias surgidas no século XIX não dão conta de explicar a realidade atual e darão menos ainda com a substituição do trabalho humano por máquinas inteligentes.

Focando no Brasil, Fausto aponta a ascensão social ocorrida nos últimos anos e a regressão atual: “Você tem uma transformação brasileira de um processo de mobilidade social bastante acentuado, que se deu num curto espaço de tempo e que chega a um fim abrupto. Então, essa pesquisa é colhida num momento em que ‘deu ruim’, ‘deu ruim’ para muita gente que experimentou o plano de saúde privado, a escola privada, e voltou para o sistema público. O que vai resultar dessa experiência, não é claro. Uma sociedade, ainda que não esteja politizada nesse nível sofre os efeitos do colapso do sitema político, tal como ele se organizou no período da redemocratização. Que afetou o PT de maneira muito dura, e não só o PT.”

“Essa pesquisa está mostrando um Brasil que está num desmonte.”

Giovanni Alves

Giovanni Alves contrapõe dois momentos do país: as décadas de 1950 e 1960, em que nos encontrávamos na ascensão história do capitalismo industrial, e as décadas de 2000 e 2010, em que experimentamos a decadência do capitalismo industrial . Afirma ele: “a desindustrialização muda todo o sentido produtivo no caso de uma metrópole como São Paulo”

“Nos anos 60, você tinha elementos de uma tremenda ideologia que buscava quebrar essa percepção da luta de classes e, de certo modo, passar aquela ideia de que patrão e empregado pertenciam a uma mesma comunidade produtiva. Se formos verificar, temos elementos de continuidade e descontinuidade na miséria das camadas populares nas metrópoles nesse país.”

Ele salienta aspectos mais gerais do capitalismo global e enfatiza que as mudanças em curso não são singulares do Brasil ou de São Paulo: “Eu salientaria a questão do desmonte do mundo do trabalho, esse aprofundamento da precarização do trabalho nas suas mais diversas dimensões. Isso é um dado que explica muito dos resultados dessa pesquisa”.

O professor chama atenção para um aspecto que julga pouco lembrado a “precarização das condições existenciais do trabalho vivo”, a falta de sentido de vida oriundo do trabalho. Sindicatos e partidos burocratizaram-se e não se preocuparam com esse aspecto. Para ele a valorização das igrejas e das famílias significa a ocupação, por essas instituições, do vazio de sentido da atividade profissional. As igrejas neopentecostais estão “dentro de uma lógica de mundo, onde alienação se aprofundou a uma dimensão que as pessoas estão recorrendo a esses espaços e não tem volta”.

Nas conclusões da pesquisa encontramos que “no processo de formação de opinião, as condições materiais de vida e do cotidiano são preponderantes”. Giovanni Alves ressalta esse aspecto como “fundamental para a formação de uma consciência de classe.”

Ele conclui que teremos outros resultados na ação social “no dia em que essas pessoas tiverem a consciência clara de que não existe mercado para todos”.

“As esquerdas perderam votos na periferia quando deixaram de ser esquerdas.”

Gabriel de Santis Feltran

Feltram, com base na diversidade de formas de ver o mundo nos bairros periféricos, opina que os “jovens” pesquisadores da Fundação Perseu Abramo “não deram conta dessa diversidade e acabaram homogeneizando demais a interpretação”. Para ele é “bem perigoso” imaginar homogeneidade nas periferias que são, ao contrário, crescentemente, heterogêneas.

Ele nos lembra que “nas eleições municipais as periferias de São Paulo elegeram a Erundina, o Maluf, o Pitta, a Marta, o Kassab, o Haddad e o Doria. Mas, veja, elas votaram no Lula, majoritariamente, desde 1989”.

Sua avaliação, ainda assim, é que as esquerdas perderam votos na periferia quando se distanciaram e consideraram que a base era “menos importante eleitoralmente do que televisão e políticas populares, de melhora do bem estar, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, etc. Não há espaço vazio em política. Outros grupos, como as polícias militares (que têm horas de programa diário na TV aberta, dentro das casas das periferias, com figuras carismáticas como apresentadores), os evangélicos (com suas ações midiáticas e de base), bem como o empreendedorismo do mercado de trabalho, têm estado bem mais perto. E estando perto, ganham eleição ali”.

Notas

1 Andréia Galvão é professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp

2 Sérgio Fausto é superindente do Instituto Fernando Henrique Cardoso e da USP

3 Giovanni Alves é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Unesp

4 Gabriel de Santis Feltran é professor do Departamento de Sociologia da UFSCar

5 Para ler a entrevista de Feltran: http://apublica.org/2017/04/as-esquerdas-perderam-votos-na-periferia-quando-deixaram-de-ser-esquerdas-diz-pesquisador/

6 Para assitir o debate completo reaizado na FPA: https://www.facebook.com/fundacao.perseuabramo/videos/1414378015288766/

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