A CARNE FRACA DOS PEIXES

ensaio entre macacos e tucanos - por Helio Carlos Mello

A  brusca água pura do Rio Juruena, nas quedas do Salto Augusto, na fronteira entre o Mato Grosso e Amazonas, terra virgem de brancos e sertão dos índios Rikbaktsá.

Tempo difícil para os bichos no país em ponte para o futuro. Está um azougue a paisagem vindoura e em seu punhal perdem-se as árvores, os biomas se aniquilam para a morada dos animais, finda-se nosso romantismo no terceiro milênio. De repente chegou a pílula do desenvolvimento novamente para nossa estima em evidente enfermidade.  Palavra longa e cheia de meandros, o conceito de desenvolvimento surge na biologia, empregado como processo de evolução dos seres vivos para o alcance de suas capacidades genéticas, mas hoje escandaliza a bicharada que teme o tal.

Tucano tenta apagar os resultados.

E se quer mais, de muito mais desenvolvimento carecem os que mandam na nação. Bicho é ser sem noção dos mercados do sistema, mesmo sendo nós humanos bichos também. Vontade de bicho não conta.

Entre todos os reinos é o das águas que sente primeiro a mudança de humor dos homens. Das águas partiram-se em pegadas os seres conquistadores das terras, diz a lenda.  Répteis partiram para  vôos no céu, se fazendo ave também. Na verdade é o macaco, é o tucano, é o tucunaré que conversam entre si na Amazônia, todos estão em dúvida em suas vicissitudes na Terra.

Entre tudo de surpreendente que vi nas artimanhas e graças que na natureza insiste,  lembro-me dos peixes em abundância nas águas, dos macacos que nas árvores iam em bando, mas neste momento são perseguidos pelos que temem a febre, matando os deserdados próximos às cidades; e os tucanos,  bichano bonito , lembrado a todo momento na mídia porque é mascote de impura legenda partidária.

  Tucano é abatido por flecha certeira. Na culinária tradicional dos povos originários, muitos animais são comestíveis e fartos num ambiente saudável, propiciando plena segurança alimentar.

Triste destino para macacos e tucanos, bichos tão inteligentes e, sinceramente, perdoem-me os que não sentiram fome em suas trilhas,  saborosos em suas carnes distintas, tenro alimento, muito apreciado entre os indígenas. Tucano comi em caldo, caldo forte de energias entre a carne azul de seu sangue. O macaco sempre assado, bicho que morre com sorriso nos dentes, é carne tradicional entre as etnias. Entre os índios o apetite da comunidade não afasta todo apreço aos animais também. Esses se tornam muitas vezes membro do clã, companhia das crianças.

Andam matando macacos entre as cidades, uma vingança contra os bichos que insistem. Tucanos, ao contrário, cruzam os céus fugindo das lavouras, entre nós se mostram. A natureza anda confusa e os peixes lamentam o rio que seca, se suja ou se estanca em busca do tal desenvolvimento. Não há muito a se esperar dos bichos em época de protestos, animais não se revoltam ou fazem passeata, quando muito ficam tristes, amuados num canto, ou saem boiando por aí.

Na natureza tão farta da América Latina vemos que tudo míngua. Até a piaba que por todos os rios nadava agora entristece. São as águas que trazem a mensagem nesse tempo. É Doce, é São Francisco, é Xingu, todos  os rios lamentam e as chuvas secam suas margens e pranto.

A ponte não terá muita serventia em terra seca de leitos. As cigarras cantam quando a chuva volta à terra. Cada vez calam mais.

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