Oito de março de 2017, o dia em que a ausência nos fez presente

Assim, nos juntamos às mais de duas mil pessoas reunidas em Chapecó para lembrar daquelas que tanto lutaram e possibilitaram estarmos aqui hoje, nos manifestando com liberdade.

por Coletivo Tereza, de Chapecó (SC), especial para os Jornalistas Livres

Em meio a uma diversidade de cores, quase nenhuma em tons de rosa, encontramos o nosso espaço. Foi a primeira vez que nós, jornalistas, levantamos uma bandeira. Afinal, como podemos ser imparciais quando a causa também é nossa? Assim, nos juntamos às mais de duas mil pessoas reunidas em Chapecó para lembrar daquelas que tanto lutaram e possibilitaram estarmos aqui hoje, nos manifestando com liberdade.

O Dia Internacional da Mulher surgiu das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho. Um século depois, aqui estamos nós, aderindo a uma greve mundial para podermos ser quem verdadeiramente somos, com respeito e igualdade. E para lembrar que mundo seria esse, sem as mulheres.

“Como seria um mundo sem a arte de Frida Kahlo, sem as vozes de Piaf, Mercedes Sosa ou Maria Bethânia? Como se escreveria a história sem a coragem de Anita Garibaldi (a heroína de dois mundos)? Que mundo seria esse que não conheceria os versos de Cora Coralina? E a ciência sem Ada Lovelace ou Marie Curie? Como pensar uma sociedade desenvolvida sem as inúmeras contribuições anônimas de tantas mulheres em tantas áreas do saber”, questiona Liliane Araujo, presidente da UBM (União Brasileira de Mulheres) de Chapecó.

Já a socióloga Myriam Aldana Vargas pensa que esse mundo seria, no mínimo, muito sem graça. “Eu começo a pensar na minha família, nas minhas amizades, na minha militância entre as mulheres. No trabalho, nas coisas que vivi, nas loucuras da vida que tenho feito. E se tirar tudo isso fica uma vida tão chata”. Integrante da AMB (Articulação de Mulheres Brasileiras), a pesquisadora acredita muito nas relações que somos naturalmente ou instintivamente habilitadas a construir. E que qual seria a graça do mundo sem os laços que estabelecemos ao longo da vida?

“Eu, por exemplo, fiquei casada durante 23 anos e quando reflito como foi possível todos esses anos de parceria e cumplicidade lembro de todas as coisas que eu fiz para manter a relação. Eu acho que muito desses anos juntos se deve mais às minhas iniciativas. A gente tem mais criatividade. Em um mundo sem as mulheres faltaria muita criatividade, muita cumplicidade. Por causa delas as coisas acontecem com outro sabor. As mulheres dão tempero para a vida”, acredita Myriam.

Infelizmente, esse mundo insosso sem as mulheres ou inexistente sem sua metade da população feminina (no Brasil somos 51,4%, segundo o IBGE), é o mesmo mundo que nos fere de geração em geração. “Estamos falando de seres humanos com direitos limitados, que trabalham recebendo menos e que acumulam jornadas e funções. Que são assassinadas por não desejarem mais estar em um relacionamento. Que têm seus corpos e condutas julgados diuturnamente e que correm mais riscos de serem estupradas e mortas dentro de casa do que em qualquer lugar desse mundo”, lamenta Liliane.

É por isso que tanto ela quanto Myriam, e outras pessoas do mundo todo, pararam suas atividades nesta quarta-feira e aderiram à Greve Internacional das Mulheres. Um movimento de luta e resistência motivado pelas manifestações e paralisações nascidas na Argentina e nos Estados Unidos e que hoje ocorre simultaneamente em 55 países

Em Santa catarina, os atos aconteceram em 14 cidades. Na cidade de Chapecó, na região Oeste, a mobilização contou com uma caminhada pela avenida principal da cidade, acolhida e almoço na praça central, discussão sobre a proposta de reforma na previdência, intervenções culturais e debate sobre gênero, raça e violência na sociedade atual. As ações foram realizadas durante todo o dia e organizadas por movimentos sociais, sindicatos, coletivos femininos, grupos de mulheres e entidades organizadas.

Um dos grupos mais numerosos, o Movimento das Mulheres Camponesas, reuniu representantes de diversas comunidades do interior. De chapéu e cartazes na mão, jovens e senhoras chegaram em ônibus lotados para lembrar da data como um momento de combate às injustiças sociais e de desigualdade de gênero. Assim é desde 1983, quando surgiu a organização no Brasil. Em 2017, uma das principais reivindicações diz respeito a proposta de Reforma da Previdência enviada ao Congresso Nacional. A PEC prevê, entre outras mudanças, estabelecimento de idade mínima de 65 anos para os contribuintes solicitarem a aposentadoria. “Nós precisamos sensibilizar os políticos e a sociedade, mostrar que o déficit da previdência é enganoso, os dados provam que não existe. Também queremos mostrar que existem outras formas de arrecadação, ao invés de penalizar os mais pobres e principalmente as mulheres”, destaca Justina Cima, da diretoria do Movimento das Mulheres Camponesas.

Descendentes da Resistência

Agricultora e há muitos anos militante pelos direitos das mulheres do campo, Justina lamenta que o significado do dia 8 de março tenha sido distorcido ao longo dos anos. Mas, segundo ela, se o capitalismo desvirtuou o sentido da data, cabe a nós reavivar a verdadeira essência do Dia da Mulher. “Estamos trabalhando para manter o significado de luta, de resistência, de enfrentamento contra a exploração da mulher no trabalho, contra o opressão das mulheres e a favor de uma sociedade justa, igualitária, fraterna, como diz o povo. Falando com a linguagem do nosso movimento, nós queremos uma sociedade feminista. E essa sociedade feminista pensa nas novas relações entre homens e mulheres, pensa a distribuição de renda, pensa em uma outra organização possível”.

Se depender de jovens, como a estudante Jéssica Teixeira, representante do movimento estudantil e integrante do coletivo feminista Caracol Magenta, essa mudança começa agora. “Eu, enquanto mulher negra e periférica, não consigo visualizar o mundo sem as mulheres, e também sem organização de coletivos ou sem a luta pela garantia dos nossos direitos. Acredito que é muito importante que elas se organizem, ocupem seus espaços, reivindiquem suas pautas, principalmente as mulheres negras. Nos últimos anos, aumentou em 54% o genocídio de mulheres negras, então isso só comprova o quanto o estado e a sociedade precisam evoluir em prol da causa”.

Jéssica foi um dos tantos rostos que nos marcaram nesse dia em que a beleza se acentuou nas expressões, na força, na luta e nas convicções. Um dia que vimos mulheres de idades tão dissemelhantes, muitas delas que viveram ali, nesses mesmo lugares, muitos movimentos e conquistas. Outras tantas mais novas com muito furor em ter poder pelo próprio corpo, pela própria vida.

Em cima do caminhão de som, ao ecoar de vozes femininas em meio a causas tão próprias, percebemos possuir uma só luta. Estarmos ali, dividindo aquele instante, nos fez compreender que não apenas habitamos o mesmo espaço de caminhada. Somos nós que estamos falando em cima do caminhão, carregando a bandeira das mulheres camponesas, do movimento estudantil, das organizações femininas. E não conseguimos parar de pensar naquilo que Jorge Larrosa nos convida a refletir: a experiência não é somente aquilo que passamos, mas o que nos toca e, principalmente, transforma.

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