O CÉU NÃO BEIJA

ensaio sobre o chupar os dedos e o agronegócio no claro instante

No céu os indígenas trazem suas tradições e constelações, como a onça e o veado, no firmamento desenhados, um a caçar o outro. Vejo no céu do Xingu muitas estrelas, pequenos pontos de luzes brilhantes como OVNIs cruzam sempre o espaço, em grande número fazem trânsito, mas prontamente um amigo me desilude ao anunciar que os tais pontos são os satélites em movimento. De fato, é nosso lixo cósmico a circular na abóbada celeste. O céu não beija os homens, descubro nas noites do interior do país, mas encantados, temos a ilusão de tocar o firmamento com os dedos.

Luís Camara Cascudo diz, na História de Nossos Gestos, que o indígena não beijava. Langsdorff explicava que o tabetá, adorno labial, impossibilitava o ósculo. Dezenas de dezenas de Povos não sabiam o que era o beijo. Nas regiões amorosas, sexuais, genesíacas, do Taiti, da Nova Zelândia, papuas, tasmanianos, arandas do centro australiano, os Semang da Malaia, os hotentotes namáquas da África sudoeste, eram inocentes dos beijos, ensinados, sem grande aproveitamento, pelo europeu de chapéu de cortiça e pedra no coração financeiro, afirma Cascudo.

Agora, de volta à cidade, não ponho os pés no riacho caudaloso entre as chuvas de verão e, em imagens de satélites, certifico o quanto se perde de nossa natureza ancestral em seus variados biomas. Em terra de onça sei também que os índios sempre souberam iludir os felinos, e disso resultam inúmeras lendas, inclusive a do índio Konewó, relatada por Ademilson Franchini:

Konewó também gostava de passar a conversa nos homens brancos, pois era crença de muitos índios que as onças haviam sido gente antes de virarem o que são hoje. Certo dia Konewó achou um gambá e introduziu debaixo do seu rabo um punhado de moedas de prata. Depois, andando por ali, cruzou com um homem branco carregando uma rede novinha em folha.

– Bela rede! – disse Konewó. – Quer trocá-la por um gambá que bota moedas de prata?

– Está me achando com cara de bobo, é? Então, Konewó apertou a barriga do gambá, e as moedas saltaram por debaixo do rabo. O homem branco ficou pasmo.

– E esse fedorento faz isso muitas vezes por dia? – perguntou ele.

– Quantas vezes lhe apertarem o ventre – respondeu o índio, apertando outra vez o bucho do gambá. As moedas saltaram outra vez, e o homem branco fez o negócio na hora. Assim que o índio afastou-se, o homem branco ergueu o rabo do gambá e quase enfiou o olho lá dentro.

– Vamos ver isto! – disse ele, apertando com toda a força a barriga do coitado. Só que, desta vez, a única coisa que espirrou foi um jato fedorento de fezes.

Talvez entre o beijo desconhecido e o cheiro dos gambás reste o bom senso dos índios que resistem ilusionistas e sendo levados ao engodo. As imensas capitanias e sesmarias distribuídas entre poucos em séculos passados até hoje vertem nos rincões. Entre arquivos históricos releio um artigo de 29 de fevereiro de 1968 da Folha de S.Paulo, sobre a denúncia de Gama Malcher, funcionário do SPI e FUNAI, da alienação e venda de um quinto de terras indígenas e parques nacionais iniciadas no governo Vargas, no antigo Estado de Mato Grosso, terras vendidas aos estrangeiros. Em entrevista ao jornal Opinião, de 13 de junho de 1975  http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=123307&pagfis=3087&url=http://memoria.bn.br/docreader#, Gama Malcher diz que “a negociata de terras em Mato Grosso foi uma vergonha tão grande que se você pegar um mapa daquela época vai ver que é um verdadeiro mosaico, todo esquadrinhado em pequenos lotes, às vezes um em cima do outro, dois ou três donos em um mesmo lugar.”

Novamente prepara-se a legislação para aquisição de terras pelo capital internacional, objeto da PL 4059/12, pronta para pauta no Plenário, tramitando em conjunto.

Os solos da Amazônia, pobres em nutrientes, não resistirão à produção intensiva sem suas florestas ou sem os milhares de toneladas de corretivos, adubos e agrotóxicos que propiciam boas colheitas. O conhecimento indígena tradicional de produção para subsistência vive ao sabor dos ventos e canto dos pássaros. Sem eles essa terra será um gambá a iludir seus proprietários e a condenar sua fertilidade.

O índio ficará mais uma vez chupando o dedo, tudo anuncia e se completa nesses tempos incertos.

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Um comentário
  • Júlia Vieira
    28 março 2017 at 9:17
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    Ótimo trabalho!
    Lindas e quase tristes fotos.
    Acrescento a tudo q vc já falou, o plano acelerado de privatização das Áreas Naturais Protegidas, vulgo Unidades de Conservação, criadas na sua maioria sobrepostas a territórios de comunidades tradicionais = grilagem oficial!
    Grilaram, criaram as UCs, não resolveram os conflitos fundiarios e agora estão privatizando o q nem sequer lhes pertence!
    Entendeu por que tem q liberar para estrangeiros?
    O comércio de carbono é a hora da vez!

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