Contra a tirania do neoliberalismo

Uma proposta de continuação ao pensamento de Cynara Menezes sobre o econocentrismo
Celso Furtado com João Goulart

Querida Cynara Socialista Morena Menezes,

Seu texto, Contra a tirania do econocentrismo, me instigou a escrever. Especialmente o primeiro parágrafo: “Por que dependemos tanto do humor das bolsas de valores? Por que temos de nos preocupar tanto com a balança comercial? Por que a economia está sempre à frente, dominando as decisões políticas? Não deveria ser o oposto, a política é quem deveria pautar a economia para fazê-la ir pelo caminho acertado, planejado, lógico? Seguir tudo o que a economia manda é justo ou, pelo contrário, aprofunda as desigualdades?”

Há muitos economistas que defendem a “ciência econômica” como algo que flui da natureza, algo como a física ou a biologia. Chamam, por exemplo, de “taxa natural de juros” àquela exorbitância concentradora de renda praticada pelo Banco Central do Brasil. Julgam-na perfeitamente justificada, dada que é “natural”. Diria Brecht:

Desconfiai do mais trivial,

na aparência singelo.

E examinai, sobretudo,

o que parece habitual.”

Outros a veem ciência social, indissociável da política. Outros ainda, como o professor Paul Singer, não a entendem como ciência, mas um pedaço de ciência: “Eu diria que ciência é a somatória das disciplinas. A somatória de Economia mais História, Sociologia, Política, etc. é que seria uma possível Ciência do Homem.”

Assim sendo, as respostas às questões desse campo variam substancialmente, conforme a quem se pergunta. Ao questionarmos os economistas da corrente majoritária, hoje no Brasil e no mundo, sobre a dominância da economia sobre as decisões políticas, certamente, ouviremos que as leis econômicas são imutáveis e que, ao transgredí-las, obteremos resultados desastrosos. Mas, nem todos economistas responderão assim.

Há economistas, que em geral não são ouvidos na mídia tradicional, que entendem que não há, na verdade, protagonismo da economia sobre a política e, sim, o inverso. As ditas “leis econômicas” se prestam a justificar posições ideológicas que ficaram escondidas na formulação das próprias “leis”. A decisão política sempre prevalece, dirão. Exemplificando, novamente com a questão da taxa de juros, Keynes e seus seguidores dirão que a taxa praticada por uma sociedade é um acordo, uma tradição. A tradição brasileira é praticar a taxa de juros mais alta do mundo e não há qualquer maldição, ou “lei econômica” que nos obrigue a isso, afirmarão.

Não existem, para muitos economistas, decisões de política econômica certas ou erradas, mas decisões que se conformam a certos objetivos políticos de concentrar ou distribuir renda, fundamentalmente. Decisões que favorecem interesses e contrariam outros. Celso Furtado disse:

“[…], pois a luta contra o subdesenvolvimento não se faz

sem contrariar interesses e ferir preconceitos ideológicos”.

Faço parte desse grupo que acredita que quando caminhamos para a perda de renda dos mais pobres, não estamos, simplesmente, diante de um efeito colateral de um política econômica “correta”. Estamos assistindo à decisão política de concentrar renda, tranvestida de lei econômica implacável.

Ao estudarmos o período da guerra fria, nos anos que seguiram a II Grande Guerra, veremos que foi um período de grande aumento do bem-estar dos trabalhadores. As “leis” eram outras? O arranjo político era outro, penso. Arranjo que se desfez e é simbolizado pela subida de Thatcher e Reagan ao poder. Esse é o neoliberalismo que amargamos até hoje. Balançou com a crise dos subprimes, mas não caiu.

Finalizo com mais um pedacinho de Brecht:

Suplicamos expressamente:

não aceitei o que é de hábito

como coisa natural,

pois em tempo de desordem sangrenta,

de confusão organizada,

de arbitrariedade consciente,

de humanidade desumanizada,

nada deve parecer natural,

nada deve parecer impossível de mudar.”

Um grande abraço.

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