Prefeito de Florianópolis marca rodada de negociação com municipários e não comparece

Reunião deveria ter ocorrido nesta terça pela manhã, mas prefeito preferiu judicializar a conversa com categoria em greve há 36 dias.
Florianópolis. Foto: Raquel Wandelli.

por Raquel Wandelli, especial para os Jornalistas Livres

O prefeito de Florianópolis, Jean Loureiro (PMDB), propôs uma rodada de negociação com os municipários em greve, depois de uma forte manifestação realizada pela categoria no Centro de Florianópolis ontem (20), no final da tarde. Cerca de sete mil servidores públicos municipais estão em greve há 36 dias contra um pacote de medidas que retira todos os direitos dos trabalhadores, além de desmontar o sistema de saúde do município, que é um modelo para o país desde a implantação do SUS. A rodada começou no final da tarde, logo após a passeata, sem apresentação de nenhuma proposta, mas a reunião de fato, que deveria ter prosseguido hoje pela manhã, na Prefeitura, não aconteceu. O prefeito preferiu judicializar a conversa, convocando uma reunião para amanhã (23), às 9 horas, no Tribunal de Justiça, internediada pela desembargadora que decretou a ilegalidade da greve, Vera Lúcia Cepetti.

Aprovada na última assembleia da categoria, a proposta apresentada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem) solicita que o executivo encaminhe Projeto de Lei à Câmara de Vereadores restabelecendo todos os direitos suprimidos pela aprovação do PL 1591, de  janeiro deste ano que, entre outras alterações estruturais, determina o fim do plano de carreira do servidor e cortes superiores a 50% nas futuras aposentadorias. O PL faz parte de um conjunto de projetos de cortes nas verbas públicas apresentado em caráter de urgência pelo executivo à Câmara de Vereadores, no mesmo estilo do que fizeram os prefeitos de São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. É considerado o piloto municipal do pacote neoliberal de desmonte do serviço público impetrado por Temer no país, conforme o presidente do Sindicato, Alex dos Santos. “Estão esfriando a negociação para apostar num refluxo da categoria, mas estão enganados: o movimento está cada vez mais forte e não vai arredar”, avalia Renê Munaro, farmacêutico e membro do Comando de greve, que considera a convoção da reunião para o TJ como uma tentativa de judicialização das negociações e criminalização do movimento. Servidores e entidades apoiadoras da luta farão uma manifestação em frente ao Tribunal pela manhã, durante a audiência.

Com adesão inédita dos médicos, dos assistentes sociais, de várias outras categorias, e 100% de paralisação das escolas, os servidores tiveram uma reação forte e persistente, mantendo uma greve inédita na história. Desde o dia 17, a creche Matheus de Barros, no bairro Monte Cristo, está ocupada pelos pais e servidores para impedir o seu fechamento pelos cortes de verbas. Uma rua lateral à creche foi fechada pelos próprios moradores para que ninguém entre enquanto não houver garantia de creche para todos com a derrubada do pacotão de Gean. Enquanto desenvolvem atividades políticas e educativas dentro da creche ocupada, pais e crianças ouvem as sirenes da polícia do lado de fora. Amanhã (22) às 8h30min, um ato será realizado no bairro em apoio à greve, informa Camila Boff, integrante do Comando de Greve, grávida de oito meses, que estava na manifestação do Centro. Grande maioria dos pais e alunos da rede municipal apoia a paralisação e participa com os professores das atividades de rua da categoria.

No dia 17 de março, o secretário Filipe Mello declarou em programa de rádio que a prefeitura havia encaminhado projeto atendendo algumas revindicações e propondo o fim da greve. A categoria, contudo, entendeu que não havia nenhum recuo do prefeito e votou pela continuidade do movimento, respondendo com uma proposta que pede a revogação do chamado “pacote de maldades” de Gean Loureiro, Gean Loureiro que se elegeu com a promessa de valorização do serviço público e dos aposentados. O presidente do sindicato da categoria, Alex Santos, reclama principalmente do “atropelamento e autoritarismo na imposição das medidas, que foram votadas e aprovadas no período de recesso, por apenas um voto e sem a necessária discussão com a sociedade civil organizada e nem mesmo com os vereadores, que nem tiveram tempo de apreciar medidas tão complexas e impactantes para o futuro da população”.

Durante a manifestação de ontem, que foi acompanhada por forte aparato policial cercando as ruas e a entrada dos prédios da prefeitura, o sindicato distribuiu um material que apresenta de forma bem didática o pacote de Gean Loureiro para facilitar o acompanhamento das ações e ajudar a população a compreender as repercussões negativas do pacote. Ao mesmo tempo em que avança com as ofensivas contra os direitos, o prefeito impinge sanções aos trabalhadores em greve, o que só tem fortalecido o movimento, conforme o médico Renato Figueiredo, diretor do Sindicato dos Médicos de Santa Catarina e membro do Comando de greve do Sintrasem, que considera a iniciativa de Gean como uma forma de desestruturação do Sistema Único de Saúde, ao tirar a perspectiva de carreira do médico e reduzir a carga horária dos agentes comunitários. Entidades sindicais de todo o Brasil e de vários países se manifestaram contra as ameaças de prisão dos sindicalistas, quando, há duas semanas, o procurador geral de Florianópolis entrou no Tribunal de Justiça com pedido de intervenção no sindicato e prisão de todos os diretores da entidade, que não estariam cumprindo a ordem judicial de retomar o trabalho. O pedido não foi aprovado pela desembargadora responsável.

Por volta das 17:30 de hoje, o grupo, formado por professores, trabalhadores do posto de saúde, demais servidores e representantes da comunidade, saiu da E.B. Dilma Lúcia dos Santos rumo ao centro do bairro próximo à praia. No caminho, foi buscado o diálogo com a comunidade, explicando sobre a situação e falando palavras de ordem contra o prefeito Gean Loureiro – chamado de “Inimigo da Cidade” por alguns cartazes – e o projeto de lei 597/17, conhecido como Pacote de Maldades, por retirar direitos dos servidores públicos. Na marcha, houve momentos também de crítica à cobertura midiática da RBS sobre a greve. A greve caminha para ser a de mais longa duração na história da categoria, contabilizando até hoje 36 dias. Fotos: Giovanni Velozo.

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