o rio que passa aqui e a fronteira da poesia

as águas no samba

Quando o chefe indígena dos Sioux pediu para enterrarem seu coração na curva do rio, ele não conhecia o Rio Xingu, nem imaginava que na volta grande das águas, seus parentes veriam uma imensa hidrelétrica mudar o ritmo das águas. Não há heróis em Belo Monte, assim como não há araras em Pasárgada. O rio é lugar que se move, indefinido, um lugar num tempo de existir e passar. Ficam os pesares fincados nas margens.

 

O poeta Thiago de Mello relata que o primeiro verso lhe veio ao recordar, em cima de uma árvore, a morte de seu amigo afogado, caído nas águas quando soltavam pipas na beira do rio. Os inimigos da vida são assim, de repente, um passo em falso e cessam os movimentos, mesmo na plena alegria do viver. O compromisso com a verdade cabe à poesia, lembra ele, e aos artistas, agora, é devido sepultar a mentira. E nas águas nos perdemos, nossos rios se perdem em nossas frivolidades e arrogâncias. Em todas as cidades nossos rios nos envergonham, sujos, escassos.

 

Nesse momento, algumas lideranças indígenas se dirigem à passarela do Rio, que no samba terá, entre seus enredos, as águas do rio a girar na boca do monstro. Belo Monte, a hidrelétrica na curva do rio, na volta grande das águas, não é lugar para enterrar coração de índio, mas terra para grandes investimentos. Depois das águas dominadas busca-se o ouro.  

Nunca perguntaram ao peixe, antes de comê-lo, o que ele achou da usina. Raro alguém pensar em falar com peixes. Devíamos. Peixes morriam pela boca na isca ou flecha de canoa. Hoje dizem que os peixes morrem de qualquer coisa, de susto também. Das margens sabe o cafuso, o ribeirinho, o mulato, o índio; ninguém discorda: o rio já não é o rio,  amanhã será de outros, ontem era meu e era o tempo da gente,  hoje nada sei onde encontrá-lo.

 

Nos argumentos para um contrato mundial sobre as águas, Manifesto das Águas, o italiano Ricardo Petrella, declara que a água pertence bem mais à economia dos bens comuns e à partilha da riqueza, do que à economia de acumulação privada e individual e da predação da riqueza do outro.

 

Nem São Francisco, nem Tietê ou Doce. Tudo fraqueja, cansados estão os rios. Quando éramos crianças nos anos 60, manchetes improváveis nasciam nos jornais, sobre a destruição da Amazônia e o desaparecimento das espécies. Lenda viva bate dura na cara da gente em dias de carnaval,  monstro em cheque no sambódromo e o índio entre o agronegócio e o samba.

 

A poesia não deve temer ou se acanhar diante das águas represadas, desviadas ou engarrafadas. É preciso romper o asfalto das palavras no tempo dividido de nossa  era. Raduan Nassar, Imperatriz Leopoldinense e tudo que não cala mexe e remexe entre a lama e a chuva. A palavra tem sede.

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Um comentário
  • celso de alencar
    25 fevereiro 2017 at 6:42
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    Olá Helio, parabéns pelo seu trabalho. Tenho acompanhado suas matérias neste Jornalistas Livres e me resta parabenizá-lo. O Brasil está nos assustando e é necessário para eliminar esse susto, a palavra. Lamentavelmente já não mais se formam intelectuais, poucos são os pensadores, voltados para o povo, para a igualdade. E agora, convivemos com essa laia que adquiriu a Escola da Vila. Por duas vezes nos anos 80 estive na Escola fazendo palestra e me encantei com a sua proposta. Agora, com a venda, estou abismado. O seu artigo mostrando o Rio Xingu, levou-me a tomar a liberdade para lhe enviar um poema antigo, já publicado no Poemas Perversos, mas ainda bem vivo.

    DEVOLVAMOS O RIO

    Devolvamos o rio.
    Devolvamos tudo aquilo que lhe pertence.
    O silêncio das manhãs entreabertas.
    O sol atravessando o orvalho com
    formato de um ombro inteiro.
    As bandeirolas de papel crepom resplandecente.
    Os barcos e seus porões de pequenas estátuas.
    O gozo do redemoinho deslumbrado.
    As árvores derramando flores
    sobre as corredeiras.
    O cântico dos pássaros que se banham nas margens
    onde dormem os cavalos levemente embriagados.
    Os segredos dos namorados
    e a inocência dos corações emigrantes.
    Devolvamos as pequenas ondas.
    A solidão dos pequenos pescadores
    com seus sonhos transparentes e os peixes.
    Devolvamos a morte estremecente
    e além da morte
    o cemitério viajante e afundado.
    Devolvamos tudo, inclusive o leito experimentado
    que acolhe a vastidão de nomes inteiros
    e a vida com suas mamas profundamente desfiguradas.
    Devolvamos o rio.

    do livro Poemas Perversos, 2011

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