ENTRE O REI E O PASTOR

a espada na cruz e a boa pescaria

Indígena Rikbaktsa e seu tambaqui capturado na flexa.

Nos anos 60, índios não sabiam o que era rei. Mito de índio é história  viva, sem aqueles idealismos gregos que percorremos em nossa gênese. Entre cobras grandes, pássaros de duas cabeças ou o fogo roubado e apropriado de outros, os mitos indígenas não passam por homens atrozes ou genocidas. Mas o fato aqui é que certa tarde pairava avião sobre as terras do Xingu, e no corte na mata se fazia a pista de pouso para os pássaros barulhentos de aço, e nele, em 1964, desceu o rei, e o rei não estava nu.

O que é rei, fez-se pergunta ao vento daqueles dias, tamanha curiosidade ao porte do movimento derivado dos céus, contou Orlando Villas Boas presente na cena, em livro para crianças. Era Leopoldo III, em sua sina de herdeiro, infeliz destino que acomete a alguns. Disse o rei, enaltecido com o mundo que via, conhecesse  o Xingu antes, não teria feito o que fiz na África. Talvez tenha sido a luz, que em leito curvo e aldeias redondas, tocaram o cego pulso, ou uma arara no céu em choque de realidade, que trouxe o rei à sua humanidade. O rei havia perdido seu domínio e gostava de estudar peixes. O rei havia prendido, escravizado, assassinado em massa no Congo. Leopoldo III veio ao Xingu nos ares, talvez peixes nos rios voadores da Amazônia o levaram a perceber que era gente também. Fez amigo entre os pequenos indiozinhos e chorou quando um deles matou um passarinho. Seu grande amigo mirim. O rei chorou e o menino também, conta o conto, ali naquele passarinho sem reino, rei e índio choraram.

Índios Kariri-Xocó no festival EMERGÊNCIAS.

Tanto tempo passou, meio século nos reporta ao fato. Hoje rei não desce mais do céu ao índio. Do céu sabem apenas dos pastores que avançam pelo grande rio na pesca de devotos. Pastores querem almas livres, pois essas são de fácil condução. O recém nomeado presidente da FUNAI, o dentista e pastor  Antonio Fernandes Toninho Costa, traz um novo paradoxo à questão indígena: ensinar o índio a pescar.

Monetarizar as etnias deve ser alguma inspiração que os empenhados indigenistas ainda não tinham alcançado em suas preces. Tudo que era sólido de fato se desmanchou no ar, Karl Marx tinha toda razão, resta agora apenas ensinar o índio a pescar e rezar. Gerar renda ao índio vai se impondo aos olhos, que atentos, viam apenas passarinhos entre as árvores, e na flexa trazia seu alimento. O jovem indígena e sua comunidade trazem, na abertura ao mundo do consumo, todas as necessidades e muitas demandas dos novos tempos.  Ao futuro vemos um mundo de terras devastadas e antigas histórias entre imagens de um tempo que finda, que acaba todo dia um pouco, com a morte de velhas e velhos indígenas em alguma aldeia.

Antonio Fernandes, dentista e presidente da FUNAI, afirma os preceitos constitucionais aos povos tradicionais, mesmo sabendo que o governo que o nomeou corteja emendas à Carta de 1988 que professa: São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.”  É cabida a preocupação do presidente e o Banco Mundial também contempla esse debate com a salvaguarda de garantias econômicas face ao avanço do sistema capitalista em regiões de grandes investimentos internacionais na exploração de recursos naturais.

Apenas a geração  de renda entre os rincões se mostra como saída para alguns legisladores, uma carteira de trabalho, uma empresa sustentável entre sonhos ruins, onde o agro vai se firmando em tudo, entre ouro e pedras brilhantes no cascalho, óleo preto na areia,energia das águas. Ensinar o índio a pescar talvez seja a antítese do Brasil  tupi or not tupi de Oswald de Andrade, perguntando da caravela tardia ao índio da mata virgem: Sois cristão? Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte. E em seu erro de português a nos lembrar sempre: quando o português chegou debaixo duma bruta chuva vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de sol o índio tinha despido o português.

Toda palavra cala, no jogral desse momento, nos ares dessas águas. Perdem-se em máscaras, tropeça-se nos astros, entre reis e pastores a estrada leva ao nada.

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