O AGRO, AS TERRAS INDÍGENAS E O CARNAVAL

As dissonâncias entre os tamborins e as colheitadeiras - por Helio Carlos de Mello

O carnavalesco Cahê Rodrigues, ontem em seu perfil no Facebook, publicou o seguinte texto:

SALVE O VERDE DO XINGU, A ESPERANÇA…

Quando a Imperatriz Leopoldinense decidiu levar para a Avenida o enredo Xingu, o clamor que vem da floresta, assumiu o desafio de apresentar muito mais que um desfile voltado à cultura e às tradições das etnias indígenas que ocupam o coração do Brasil.
O clamor, destacado no título, pode ser traduzido como a voz que teimamos em não ouvir desde o dia em que os europeus descobriram oficialmente estas terras, batizadas com o nome da madeira que, antes da cana-de-açúcar, do ouro, dos diamantes e da escravaria, começou a enriquecer os cofres de Portugal.
Ao longo dos séculos, aprendemos que o povo brasileiro é resultante de três raças: o índio, o negro e o branco. No entanto, nossa História sempre foi contada pelos brancos, pois negros e índios raramente tiveram a chance de expressar tudo que tiveram de enfrentar para ajudar a construir essa História. Infelizmente, pouco sabemos sobre eles, além da certeza de que milhões de vidas foram ceifadas para dar passagem ao que os colonizadores do passado e do presente rotulam como “progresso”.
Antes de entrarmos no âmago do enredo que a Imperatriz, orgulhosamente, prepara para o Carnaval 2017, é importante reavivar a memória.
No Carnaval 2015, com o enredo Axé,Nkenda!, a Imperatriz fez um alerta sobre atitudes racistas que ainda ferem a raça negra. Para isso, fizemos uma viagem à África, mostrando de onde vem boa parte de nossas raízes culturais. Mostramos ao público o orgulho que devemos ter da genética negra que carregamos em nosso DNA.
No ano passado, pela primeira vez na história do Carnaval Carioca, a Imperatriz ousou em exaltar a música sertaneja, personificada na dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Para falar de sertanejos, também mostramos a lida do homem do campo e da importância da agropecuária do Centro-Oeste brasileiro no abastecimento de alimentos para a nossa população. A mão que revolve a terra é a mesma que ponteia a viola e traz à mesa os alimentos que garantem a nossa sobrevivência.
Quando decidimos falar sobre o índio e, em especial, sobre a importância da reserva do Parque Indígena do Xingu, nosso objetivo não é outro senão fazer um alerta sobre os riscos que ainda ameaçam as 16 etnias que ali resistem e, indiretamente, muitas outras espalhadas pela Amazônia.
Cabe lembrar que os povos xinguanos são originários de territórios vizinhos ao Parque e foram transferidos para a reserva depois de um longo e exaustivo trabalho de convencimento feito pelos Irmãos Villas-Bôas, exaltados em nosso enredo. Não fossem os Villas-Bôas, esses povos indígenas, como tantos outros, já teriam desaparecido em função de doenças, envenenamento e atos de extrema violência cometidos por invasores de terras das mais variadas espécies, como madeireiros, mineradores e até fazendeiros.
Seria, no mínimo, estranha a nossa posição exaltarmos o trabalho de produtores rurais num Carnaval e criticá-lo no outro. Nem vamos sustentar números ou comparações entre os territórios ocupados pelas etnias indígenas, demarcados por leis federais, com as terras produtivas. Cada uma dessas áreas possui a sua finalidade e devem ser respeitadas como tal. Nunca foi nossa intenção agredir o agronegócio, setor produtivo de nossa economia a quem respeitamos e valorizamos. Combatemos sim, em nosso enredo, o uso indevido do agrotóxico, que polui os rios, mata os peixes e coloca em risco a vida de seres humanos, sejam eles índios ou não, alem de trazer danos em alguns casos irreversíveis para nossa fauna e flora.
Mas também chamamos a atenção para o medo e a preocupação permanentes dos xinguanos, que a cada noite temem uma nova invasão de suas terras. Ou imaginam a catástrofe que a usina de Belo Monte desencadeará no ecossistema de toda aquela região, inundando aldeias, igarapés e levando na força de suas águas as chances de sobrevivência de sua gente. Tive a oportunidade de ver isso pessoalmente. Conversei com eles, ouvi a sua angústia.
Quando a Imperatriz decidiu levar o Xingu para a Avenida, tinha uma razão muito forte. Ela quer dizer apenas: respeitem o nosso índio e aprenda, com ele, a amar o que chamamos de Brasil.
Viva o Xingu! Viva os Irmãos Villas-Boas e todos aqueles que lutam pela causa indígena! Viva o Índio Brasileiro! Viva a Imperatriz Leopoldinense! Para sempre…

O que motivou tal manifestação? O samba enredo da escola Imperatriz Leopoldinense que trará ao desfile a Terra Indígena do Xingu e o belo monstro que se instalou em suas águas para gerar energia em terras e negócios envolventes à região e que sufoca e desconstrói os povos tradicionais.

Certas palavras tem ardimentos, observava Manoel de Barros em certo poema. Agro talvez seja uma dessas que arranham goela abaixo quando se come, ou fere os tímpanos alheios quando se fala. Antigamente era o campesinato e as famílias habitando o campo e produzindo alimentos. Hoje grandes máquinas afortunadas aram o campo após o desmatamento, e o agro empresário deu lugar ao camponês que mudou-se para a cidade e compra seu alimento nos mercados. Algumas palavras também provocam medo, vagamente adivinhado, específicos males a quem não tem saúde de ferro para o desmatamento e agrotóxicos. Corpos frágeis são os que pedem rebeldia e esses sempre irrompem nos enredos da avenida.

Agro não é tudo, nem o será, pois antes dele há as mãos dos homens, sua cultura e sobrevivência.

Confira os links abaixo para entender a polêmica:

http://odescortinardaamazonia.blogspot.com.br/2017/01/enredo-da-imperatriz-leopoldinense-gera.html

http://radios.ebc.com.br/natureza-viva/edicao/2017-01/samba-enredo-da-imperatriz-leopoldinense-causa-polemica

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