O discurso esquizofrênico de Michel Temer na ONU

Por Gabriel Rocha Gaspar*, especial para os Jornalistas Livres

O discurso de Michel Temer na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas na terça-feira (20) mereceria um estudo profundo. Não vale a pena discorrer longamente sobre a incoerência estrutural do conteúdo, porque isso já foi muito bem feito pela Helena Borges no Intercept. Basta dizer que ele tenta vender a ideia de que tudo está normal e o Brasil cumpre, internacionalmente, o mesmo programa que nos colocou no mapa da diplomacia durante os governos petistas.

Michel Temer parece querer recuperar a credibilidade política na esfera internacional à la Pollyana, fingindo que tudo vai bem. Suponhamos (apenas suponhamos) que o autor deste texto refutasse a tese do golpe, pensasse que o Judiciário brasileiro faz um trabalho isento de combate à corrupção, que a imprensa é livre e comprometida com a imparcialidade. Ainda assim, se o mundo suspeita que há algo de podre no reino da Dinamarca, cabe aos dinamarqueses se explicar. E pesam muito mais suspeitas sobre o Brasil do pós-golpe que sobre a Dinamarca shakesperiana.

Quem falou? Pra ficar aqui na França, Le Monde, Le Figaro (diários conservadores franceses viraram leitura trotskista perto da grande mídia brasileira), Libération, membros diversos do Legislativo francês e daí por diante. Até o New York Times olha de rabo de olho para esse “impeachment”. Na China, ele fingiu que tudo andava normal no G20 e fez cara de paisagem para a foto oficial, como se não tivesse sido colocado de canto, como mau aluno de escola sem partido.

Diante de delegações que deixavam a sala em denúncia a sua ilegitimidade, Michel Temer subiu à Tribuna da ONU para falar do Brasil atual como se estivéssemos na era Lula, quando os problemas mais graves se passavam porta afora e o mundo via nossa jovem democracia com esperança. Dizer hoje que, “aí na terra de vocês, tem guerra, xenofobia, nacionalismo ‘exacerbado’ (como se nacionalismo “contido” não fosse uma dinamite com o pavio apagado)” e posar como um farol de distribuição de renda, acesso à habitação, educação inclusiva e relações externas altivas é tratar a classe política internacional como uma extensão do quintal midiático onde os golpistas amarraram seu cavalinho de Troia. Em casa, ele pode falar o que quiser, que “umas 40 pessoas” querem vê-lo pelas costas.

Lá fora, a coisa muda. O mundo político não vê o Brasil com os olhos esperançosos da década passada. Basta reparar no grau de hesitação de chefes de Estado de todo o planeta em reconhecer isso que a gente está obrigado a chamar de “governo”. Só quem vê futuro no Brasil pós-golpe é o mais distópico dos setores econômicos: o capital improdutivo. Mas talvez esse seja o público-alvo de Temer quando trata a mais alta esfera da política mundial como um palco em que se encena a normalidade. Fingir que está tudo bem, quando todo mundo vê que não está, significa relegar a democracia ao papel secundário de administradora de aparências. E assim, sinalizar ao “mercado” (que opera por meio de aparências esotéricas de normalidade) que não há razão para se preocupar com a instabilidade gerada pela pluralidade de opiniões.

Não é novidade. Essa hipocrisia se aproxima do modus operandi dos gerentes (chamar de chefes de Estado é exagero) da União Europeia que, contra toda e qualquer lucidez, seguem impondo cinicamente, por meio de medidas de austeridade, o ônus da crise financeira aos mais pobres. Só os bancos, responsáveis pela quebra da economia global, se beneficiam dessa política. E a população em geral é abertamente contrária. Mas para um corpo político que não se vê como mais do que administrador eleito de interesses privados, tanto faz o que pensa a população em geral.

Bom exemplo disso é a maneira como a Comissão Europeia esmagou a tentativa da Grécia sob o Syriza de adotar medidas anticíclicas como forma de assegurar, no médio prazo, a renegociação e eventual pagamento de sua dívida astronômica. Nas excelentes palestras que faz pelo Velho Continente para promover seu Movimento pela Democracia na Europa (DiEM25), o ex-ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis conta algumas anedotas elucidativas.

Em sua primeira reunião com a Troika de credores da Grécia (FMI, Banco Mundial e Comissão Europeia), Varoufakis fez uma proposta moderada que, como ele mesmo diz, “qualquer advogado de falências de Wall Street faria”. Ele sugeriu duas medidas para evitar um novo empréstimo, cujas contrapartidas draconianas reduziriam o PIB do país em 28% e obviamente impediriam que a dívida fosse quitada: a reestruturação das formas e prazos de pagamento e a retomada do investimento produtivo, de onde viria a renda para reembolsar os credores.

Varoufakis construiu a argumentação de forma igualmente moderada: “Existe um programa que foi assinado pelo governo anterior e sei que um Estado exige continuidade. Um novo governo não pode simplesmente chegar e começar do zero [viu, seu Michel Temer?]. Mas o povo grego nos deu o mandato justamente para contestar este programa. Então, temos dois conceitos que se chocam de frente aqui: continuidade e democracia. Nessas circunstâncias, o que podemos fazer? Encontrar um campo comum para as negociações. Em outras palavras, fazer concessões”. Antes de terminar a frase, o chefe das Finanças gregas foi interrompido pelo seu colega alemão, Wolfgang Schauble, que soltou a seguinte pérola: “Não podemos permitir que votos mudem um programa econômico”.

Quer dizer, não podemos permitir que algo tão insignificante quanto a democracia contrarie interesses do capital financeiro. Como diz o próprio Varoufakis, eles querem tirar o “demos” (povo) da democracia. Em outra ocasião, tomando café depois de longas horas de reunião, o ministro grego ouviu da chefona do FMI, Christine Lagarde: “Você tem razão, nosso programa vai agravar a crise grega e não vai recuperar a capacidade de investimento do país. Mas você tem que levar em conta que investimos muito capital político para convencer todo mundo a aceitar a austeridade fiscal”.

Talvez, com seu discurso de normalidade, o eterno interino tente se aproximar deste grau de hipocrisia para encontrar seu lugar à mesa dos players globais. Não pela porta da frente, como fizemos nos bons tempos de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, mas pelos fundos – o que, cá entre nós, não é novidade para Michel Temer. Ele se ausenta de oferecer a resposta política que a desconfiança internacional exige porque sabe que seu único lastro com o poder – e quiçá com a própria política – é o capital. Assim, Temer faz uma mímese esvaziada do Brasil que encantou o planeta nos últimos anos. Por trás, oferece ao capital improdutivo exatamente o que ele quer: a política como farsa necessária à primazia de interesses privados.

Esse tipo de esquizofrenia é muito comum a quem chega ao poder pela via golpista. O problema é que a doença virou epidemia em 2008, quando o capital improdutivo iniciou sua ofensiva para sequestrar as esferas executivas da política. E, como se vê pela triste deriva europeia, não são só governos ilegítimos que sofrem dela.

A nossa única arma contra essa ofensiva da distopia, da ideia de que apenas uma parte privilegiada da sociedade tem direito a ter direitos, é a utopia da distribuição, tanto de poder quanto de renda. Como bem percebeu Varoufakis, é reinserir o demos na democracia, em todos os lugares, em todas as esferas. Entramos em uma luta pelo direito à participação. O discurso de Temer, por mais absurdo que pareça, mostra que este governo está consciente de que a guerra pelo controle da política está em curso. Eles escolheram um lado e estão tentando divorciar poder e povo. E nós? Estamos dispostos a radicalizar a democracia?

*Gabriel Rocha Gaspar é jornalista e mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle

Foto-ilustração de Joana Brasileiro sobre imagens de Ricardo Stuckert/ Instituto Lula; Beto Barata/PR/fotospublicas
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