O trairão e a árvore da democracia

Tudo me assusta, e as imagens de traíra, o peixe, aparecem ao léu na mente quando ouço Dilma falar da árvore, tal uma árvore a nossa democracia.
Foto: Helio Carlos Mello/Jornalistas Livres

Fotos e texto por Helio Carlos Mello

Trairão é peixe de viver sorrateiro, às margens de grandes lagoas e rios largos. Sem modéstia come parentes, estranhos passantes, e, se amigos e necessidade tiver, até tu come. Piranhas não se atrevem com ele, ao contrário, compartilham a sina. Trairão preza ficar entocado, ao aguardo, à raiz das árvores à beira d’água em seu lugar ideal. Traíra é peixe perigoso, sem arremedos e artimanhas se alimenta ao vacilo dos companheiros. Trairão é peixe que não se come em certas regras e jejuns entre algumas etnias, mas a todos apraz, com sua carne branca e de textura leve, como cabe aos bons disfarces.

Foto: Helio Carlos Mello/Jornalistas Livres

Foto: Helio Carlos Mello/Jornalistas Livres

Não serei eu, faminto por natureza, a recusar peixe astuto e bem assado, no almoço da aldeia em dia de trabalho, mas sei que há de se cuidar aos pés das árvores quando se banha no rio.

Lembranças, assim deslocadas, me ocorrem em dia triste à democracia em manhã de segunda-feira. Me recordo de imagens e signos primitivos assistido ao debate entre o Senado brasileiro e a presidenta reeleita no último pleito, Dilma Rousseff, no resguardo imposto no trânsito das análises e acordos. Tudo me assusta, e as imagens de traíra, o peixe, aparecem ao léu na mente quando ouço Dilma falar da árvore, tal uma árvore a nossa democracia. Penso na amizade, penso no vice, companheiro de cargo e desconsolo. É isso, bobeia-se e a boca grande te coleciona no estômago. Vida que maltrata essa, e se mantém viva.

Me recordo também, vendo tv nessa manhã de segunda, que a presidenta passou algumas vezes férias em beira de mar. Tivesse ido à água doce, ao Xingu talvez, à beira de caminho e não Belo Monte, pondo os pés na água fresca, não incorreria em tais confianças impróprias às margens, amizades com vice em forte vício de tocaias.

Inútil dormir agora, a dor não passa, e dizem, trairão não dorme também. Fosse gente, traíra, jogaria bomba na gente.

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