10 de agosto de 2021, um dos piores dias da história recente brasileira

Aqueles que deveriam zelar pela democracia caíram na tentação de avaliar os passos de Bolsonaro com a mesma racionalidade usada para avaliar lideranças políticas normais

Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia

A votação da PEC do voto impresso é mais um episódio na cronologia da crise democrática que nos desafia a entender a dinâmica específica da cultura política que aprendemos a chamar de “bolsonarismo”. Há quem diga que Bolsonaro foi derrotado. Insisto que não. É impossível ser derrotado no jogo em que não se está jogando. O objetivo de Bolsonaro jamais foi aprovar a PEC, pela simples razão de que ele sabe que a urna eletrônica é segura. Ele sempre soube que não havia votos pra aprovar a PEC.

O jogo do bolsonarismo nunca foi passar a PEC, nunca foi acionar os trâmites institucionais pra fazer o que quer que fosse.

O objetivo, novamente, foi agitar. O desfile militar e a sessão legislativa, juntos. A mensagem tem endereço certo: a fatia da sociedade brasileira convencida de que há uma revolução em curso no país e que Bolsonaro lidera um movimento de regeneração moral no Brasil, de fundação de uma nova ordem.

No desfile militar, identidades da caserna foram reforçadas. Bolsonaro, já muito popular entre os praças (não podemos esquecer que ele nasce pra vida pública como liderança sindical dos oficiais de baixa patente), mostra que tem ascendência também sobre parte generalato.

Ao conseguir convencer Arthur Lira a pautar a PEC no pleno, Bolsonaro obrigou parte dos deputados a votarem contra, dando a mensagem para sua base civil e armada de que o “establishment” se prepara para fraudar as eleições de 2022.

Agitar e consolidar vínculos de identidade entre seus apoiadores, construindo o cenário para a não aceitação do resultado das eleições. Nos EUA, Trump não tinha base militar. A invasão do capitólio foi promovida por militantes civis, sem coordenação. Aqui, a situação é diferente, e muito mais grave.

Outra vez, Bolsonaro conseguiu o que queria. Outra vez, aqueles que deveriam zelar pela democracia caem na tentação de avaliar os passos de Bolsonaro com a mesma racionalidade política usada para avaliar lideranças políticas normais, respeitadoras dos ritos da democracia.

Tomara que as lideranças reais, aquelas responsáveis por coordenar a resistência democrática, sejam melhores de avaliação do que os compartilhadores de memes nas mídias digitais.

Rir do que aconteceu nessa terça? Só se for de desespero.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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